Do meu tuíter @Plinio_Zingano – É, totalmente, a favor da intervenção estatal para eliminar as injustiças sociais, mas faz de tudo para não pagar o Imposto de Renda.
IMPONDERÁVEL
Minha carta de motorista perdeu a validade no fim de janeiro. Dirijo automóvel há 45 anos. Quando comecei, tinha quase 25. Com isto, dá para calcular minha idade. Este licenciamento, que terminou agora, já foi de três anos, contra os anteriores, que eram de cinco. Sei que a diminuição do intervalo entre as permissões para continuar dirigindo está levando em conta um fato incontestável: envelheci! Logo não sou mais confiável para sentar no comando de um automóvel, notoriamente, uma arma de alto poder letal. Aliás, deve ser este o mesmo raciocínio que permeou os constituintes da “Cidadã”, em 1988, quando limitaram a vida profissional dos funcionários públicos, atrelando-a aos 70 anos de idade. Talvez o Ulisses Guimarães, o promulgador da Constituição, se sentisse um imprestável e, por isso, tenha permitido a fixação do tal limite (naquele ano, ele tinha 72). Aos 70, vem a aposentadoria compulsória ou, como diziam no Exército, a “expulsória”. Significa que, ao atingi-la, chegamos ao umbral da senilidade, não importa o quanto tenham mudado as condições de vida do século XX para cá. As pessoas nesta idade, segundo os documentos oficiais, quase perderam as condições de dirigir, seja veículo, seja profissão. Mas a gente continua, e não é bem disto que quero falar. Foi só uma divagação diante da necessidade de renovar a carteira de motorista a cada três anos contra o intervalo anterior.
Assim, estava eu, ali, no Detran, preenchendo, novamente, o cadastro pessoal, como se fora a primeira vez. O órgão responsável pelo trânsito me tratava como um novato! Imagino que, após o vencimento de cada permissão, nossos dados sejam eliminados. Oxalá houvesse uma justificativa para aquela atitude burocrática. Óbvio, alguns dados podem mudar. Por exemplo, o endereço; o telefone; o… o que mais? O número da identidade? O CPF? A data de nascimento? O nome de nossa querida mãezinha? Mas, em atenção à educada atendente, continuei escrevendo.
A burocracia, entretanto, é uma hidra. A cada cabeça cortada, lhe renascem duas. Perto do fim do formulário, me deparei com a pergunta (se as palavras não forem bem estas; o sentido é): “Na sua opinião, a que você atribui tantos acidentes no trânsito?”. E, entre parênteses, a advertência: “resposta obrigatória”.
Parei! O que teria a resposta a ver com a renovação da carteira? De quem teria sido a ideia tão absurda de fazer aquele levantamento e qual seu objetivo? Não imagino alguém tabulando o resultado, pois a formulação da pergunta não se enquadra no tipo de levantamento estatístico. Ou seja, papo furado! Como era obrigatória a resposta, cuidadosamente, respondi: “Ao imponderável humano construto”.
Agora estou imaginando a grande ajuda que dei ao trânsito brasileiro. Pelo menos, de ordem lexical. Alguém, se ler, vai ao dicionário!


