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Publicado em 06/09/2021 15:36 Off

Do “Meu cinicário” – Sem treta, pergunto: drogadição também pode ser considerada caótica situação sanitária no país ou é, só, “deixa o pessoal se divertir, pô”?

INCONVENIÊNCIAS

Admito, certas perguntas são bem desagradáveis. E há pessoas com o dom de colocar o dedo nas feridas, embora a figura de linguagem seja um tanto nojenta. Eu, definitivamente, fui esquecido pela natureza para carregar esse dom, mas, vez ou outra, me ocorre alguma indagação inconveniente. Uma dessas perguntas é baseada num bordão, surgido em programa humorístico de televisão na década de 1970. Ele deve ser entendido pelo avesso da sua afirmação, ou seja, pela ironia. É o clássico “perguntar não ofende”.

Feita a explicação introdutória, aqui lhes apresento a pergunta não ofensiva: por que países onde, por definição e obrigação política, se pratica a igualdade entre todas as pessoas, por que, insisto, esses países participam das olimpíadas e ficam tão satisfeitos em conseguir resultados acima dos de outras nações, mostrando uma igualdade superior? Parecem esquecer a pureza de seus comportamentos sociais e chafurdam no lodo da competição! O “chafurdar”, claro, vai para tornar mais dramática a pergunta. Devemos concluir: na prática, a teoria é outra? Talvez esteja aí a justificativa de esses lugares, verdadeiros paraísos terrestres, admitirem dirigentes do mesmo nível das antigas realezas e impérios, dos quais a origem, todos sabemos, sempre foi Deus e fim de papo. Seria mais coerente eles  se negarem a participarem de eventos tão competitivos, arriscando-se a lançar seus cidadãos no mundo contaminado e pecador da disputa! Fiz essa longa pergunta a um amigo defensor daquele tipo de organização social e tive de ouvir uma extensa dissertação, cujo resumo bem pode ser dado em apenas três palavras: “nada a ver”.

Aproveitando o clima tenso criado pela pergunta sem-vergonha e por sua resposta mais ainda, emendei um comentário que deixou meu interlocutor desnorteado. Ignoro se por me achar um gênio na dialética ou portador de uma consumada estupidez. Em vão, ele tentou refutar-me com argumentos ilógicos, protegidos pelo verniz embelezador de românticas filosofias. Falei das pessoas de bom (notem: somente “bom”; não “extraordinário”) nível econômico e financeiro, zangadas pela existência de tanta gente passando fome. Essa turma, vivendo, nababescamente, em suntuosas mansões não sente nenhum constrangimento em emitir seus comentários, mesmo sem nada fazer de prático para minimizar o sofrimento detectado. Sabem por quê? Porque tanto neste caso como no da igualdade entre os cidadãos, há um impeditivo fundamental chamado hipocrisia. Esta é difícil de derrotar.

Eu e meu oponente continuamos amigos, mas as inconveniências também continuam!

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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