
Do “Meu cinicário” – Era tão esquecido que quase não compareceu ao próprio enterro. Felizmente, alguém encontrou o corpo e tudo correu dentro dos conformes.
INJUSTIÇA
Meio-dia! Na televisão, reportagem sobre uma partida de futebol, mostrando a longa fila para comprar ingressos. Seis horas até o guichê. Perguntavam a quem estava na iminência de passar a quarta parte do dia, tentando conseguir o tíquete de acesso ao estádio, se lamentava a situação. Os entrevistados, entre risos, respondiam: “Não! Vale qualquer sacrifício pra ver meu time”. Todo mundo satisfeito, jovens, aposentados, ninguém reclamando.
Vejamos a mesma situação, num banco, demorando meia hora. Em contraponto à anterior, nesta, as pessoas vão receber dinheiro; naquela, gastá-lo no ingresso. O que aconteceria? Indignação, protestos.
“Onde se viu? Perder tempo numa fila. Os caixas têm de almoçar agora? Só porque é meio-dia? Aguentassem um pouco até diminuir esta multidão. Trabalhamos uma vida inteira e olhe o resultado: ninguém respeita os aposentados. Meia hora pra receber o benefício!”. Aquele papo de fila!
Se olhássemos com mais cuidado a reportagem, veríamos o mesmo reclamante, quietinho, com notas contadas para entregar ao bilheteiro! Afinal aquele dinheiro é apenas o fruto de uma “vida inteira de trabalho duro”; agora vai sustentar um bando de folgados ganhando fortunas para correr atrás duma bola, tentando nos convencer que é coisa séria. Invejo. Por menos que ganhem, ainda será mais do que nós recebemos nas fábricas, nos escritórios, nas escolas.
Mas não estou tratando dos meus detestáveis sentimentos. Falo da postura das pessoas numa fila. Cansei de ver essa gente, de bem com a vida, reclamando de algo num dia e aprovando no outro. Se fila num banco incomoda, por que não a de entrada para um jogo? Por que alguém fica 360 minutos, ou mais, esperando para entrar num estádio de futebol, gastando o seu dinheiro, e não admite 30 minutos para receber o seu dinheiro? Isso me escapa à compreensão.
Senhores banqueiros, não autorizo o uso de minhas palavras para justificar esse terrível instrumento de tortura tão bem aproveitado por suas agências. Também me incomodam as filas de banco (até no autosserviço). Mas me desagradam quaisquer filas. Não faço distinção entre banco, estádio de futebol ou xou da Sandy & Júnior. Por isso me irritou, profundamente, aquela reportagem na televisão.
É injusto reclamar de uma coisa assim e depois defendê-la assado.
Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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