Representantes de religiões de matriz africana realizaram, na tarde deste domingo (2), uma manifestação na Praça Marechal Deodoro, no Centro de Taquara. A atividade ocorreu em repúdio a falas do padre Luciano de Almeida, pároco da Paróquia Senhor Bom Jesus, na missa do dia 25 de abril. Na ocasião, o sacerdote fez críticas a costumes de outras religiões, em uma fala que acabou causando polêmica.
De acordo com um dos organizadores da manifestação, Eduardo de Oxalá, que possui um terreiro em Taquara no bairro Jardim do Prado, a atividade é contrária às falas do padre Luciano e não contra a Igreja Católica. Isso leva em conta que o próprio bispo da Diocese de Novo Hamburgo, dom Zeno Hastenteufel, pediu desculpas às religiões que porventura se sentiram ofendidas com o teor da manifestação do padre.
Mãe Aline de Oxum, advogada e representante de Parobé, disse que o “povo de umbanda deve se manter unido, para que se consiga, através de um estado laico, ter as diferenças religiosas, mas com respeito”. Como representante jurídica, disse que mesmo as falas de um sacerdote possuem responsabilidade civil e que todos devem ter essa responsabilidade, dentro “da casa da gente” para promover a bandeira da paz.
Pai Pedro de Oxum, representante da Associação Independente em Defesa das Religiões Afro Brasileiras (Asidrab), disse que o momento é histórico para Taquara, “pessoas lutando por algo que deveria ser direito de todos, mas que incessantemente temos que ficar provando para os outros que a nossa tradição é milenar”. Pai Roberto de Bará, que representa uma instituição de Viamão, criticou a intolerância religiosa.
Ricardo Mesquita Sordi, coordenador jurídico da Asidrab e advogado, disse que é a segunda vez que vem a Taquara e por atos de intolerância. A primeira, lembrou ele, foi ainda quando membro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no episódio em que a Câmara de Vereadores aprovou uma polêmica moção em apoio ao deputado Marco Feliciano. Agora, disse Sordi, o ato envolve o padre que, na avaliação dele, atacou budistas, evangélicos, judeus, africanos e professores. O advogado afirmou que a religião precisa ser acolhedora e, em relação ao Direito, disse que a Constituição garante a qualquer pessoa a livre manifestação de culto. “De 2018 para cá aumentaram em 450% os atos de intolerância religiosa contra a matriz africana. Por isso a nossa orientação, sofreu ato de intolerância religiosa, registre ocorrência. Não se cale”, pontuou. A manifestação na praça foi encerrada com uma demonstração das atividades religiosas que ocorrem nos terreiros.
Contraponto
Durante a semana, contatado pela Rádio Taquara, o padre Luciano afirmou que se manifestaria a respeito na missa do domingo. Na celebração desta manhã, o padre lamentou o que classificou de mentiras e calúnias que foram levantadas contra ele durante a semana. O padre sustentou que pregou para os católicos, dentro da sua igreja, a doutrina da Igreja Católica. Afirmou que pode, apenas, ter se exaltado na sua retórica, no modo de colocar algumas coisas. Disse, ainda, que tem cerca de 40 advogados que se dispuseram a defendê-lo em eventual representação. “Dinheiro, não tenho. Serviços comunitários, já presto. Preso, o juiz de Direito que me visitou, disse que não posso ser”, afirmou. Lamentou que grupos católicos que, segundo ele, tumultuaram a missa do domingo passado tenham divulgado nas redes sociais trechos editados daquele encontro.













