Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 22 de novembro de 2013 e está arquivada em Caixa Postal 59.

(I)Realidade

Em uma visita a uma importante cidade do nosso Estado, um canadense é recepcionado (como de costume) por uma comitiva de autoridades brasileiras, que circula por uma área específica desta (previamente “restaurada”), no sentido de demonstrar as benesses do espaço ao visitante estrangeiro. Em certo momento do passeio, um dos líderes da comitiva mostra ao nosso vizinho do norte uma inovação, há muito consolidada no Brasil, como um todo, a faixa de segurança. O nobre político afirma: “Veja, esta é a grande inovação da nossa gestão, do nosso país, o que de melhor há no sentido da segurança no trânsito, um avanço”. Muito curioso, o canadense observa por alguns instantes o funcionamento daquelas linhas traçadas no asfalto e percebe que, mesmo sendo recentemente pintadas, elas não são vistas pelos motoristas que ali passam. Com seu sotaque, ele diz, ingenuamente: “lá onde eu moro, não é necessário ter faixas de segurança”. Singela história.
Em uma sociedade com princípios democráticos consolidados, algumas coisas nem são discutidas, afinal, representam o mais do mesmo. Não digo, evidentemente, que devemos, como manda o senso comum, importar políticos da Suécia, do Canadá, ou do raio que o parta. Digo, somente, que algumas repetições cansam, alguns discursos perduram e, na maioria das vezes, não sei de quem é a culpa. Analisando duas “importantes” revistas, que se dizem neutras e a favor do jornalismo (Veja e Carta Capital), percebo que há um claro sinal de subdesenvolvimento em seus discursos. Enquanto nestes países, que afirmei anteriormente, mais democráticos (em um sentido de tradição, e aqui não digo que estes são, exclusivamente, os mais ricos, e sim os que, efetivamente, investem mais em educação), alguns posicionamentos são mais claros, não necessitam do falso manto da neutralidade, que na verdade é inexistente.
Vejamos (sem trocadilhos) o caso do Mensalão, ou Ação Penal 470. O posicionamento de ambas as revistas é claro, mas, pelo que Freud chamaria de: recalcamento, nenhuma das duas admite o que prega, o que defende, aonde que ganha mais. Interesses, interesses, interesses, estes permeiam as convicções e as vocações, mas não aparecem. Nos EUA, e por favor não ocorra um julgamento por este lembrete (não faço juízos de valor), os jornais se posicionam claramente a favor ou contra determinada força política e, a partir disso, conseguem, minimamente, separar o fato da notícia. O fato, o que ocorreu, a notícia, todas as protuberâncias que aparecem depois.
No Brasil, pelo contrário, o manto da neutralidade esconde a manipulação, na cara dura, que tanto gera mal para o nosso desenvolvimento. As faixas de segurança surgem como uma ilusão no concreto. Discutimos o mais do mesmo, prejudicando qualquer iniciativa de autonomia, pois esta está contaminada por algum lado. Bobagem.
Os carros vão continuar passando.

Bruno Marques
Graduando em Ciências Sociais, de Taquara

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