
Aos 84 anos, a artista plástica Karola Behet Elshout prepara um encontro com a própria memória em “Retrospectiva”, exposição que reúne diferentes momentos de sua trajetória artística na Casa Vidal, em Taquara. Nascida em Goch, na Alemanha, em 23 de agosto de 1941, Karola chegou ao Brasil pela primeira vez em 1974, retornou definitivamente em dezembro de 1978 e encontrou na pintura, a partir do ano seguinte, uma maneira de construir uma nova vida.
A exposição permanece aberta até 31 de agosto, com entrada gratuita. E não se trata de um apanhado de trabalhos antigos e recentes. A mostra é uma viagem íntima, que expõe a maneira como uma mulher que atravessou países, culturas e décadas transformou aquilo que viu e sentiu em obras de arte.
“Pintar é transformar o que sinto em algo que toca a alma”, define.
Karola tem dupla nacionalidade, alemã e holandesa. A primeira passagem pelo Brasil ocorreu entre 1974 e 1975, por causa do trabalho em uma multinacional alemã. Depois, voltou ao país quando o marido se estabeleceu como assessor de diretoria de uma fábrica em Parobé. Taquara tornou-se, então, o lugar onde sua história brasileira ganhou permanência.
O início de tudo
A pintura entrou em sua vida quase por acaso. Uma amiga de Parobé sugeriu que Karola experimentasse a pintura em porcelana. Ela começaria um curso em Novo Hamburgo e acreditou que a atividade poderia despertar o interesse de Karola. A sugestão acabou mudando o rumo de sua vida.
Antes disso, Karola tinha paixão pela caligrafia, especialmente pelos desenhos elaborados dos séculos XV e XVI. No Brasil, descobriu a pintura em porcelana e, com ela, uma nova rede de contatos. Durante cerca de dez anos, estudou a técnica, passando por atividades em Novo Hamburgo, Parobé e Canela, além de participar de workshops em São Paulo.
“Ela me colocou no caminho da pintura”, conta.
O batismo artístico parece simples, mas explica muito do que veio depois. Karola havia chegado ao Brasil sem um caminho profissional definido. “Naquele momento, eu era dona de casa”, conta. A arte ofereceu não apenas uma ocupação, mas uma forma de olhar para o mundo e de estabelecer novos vínculos, lembra.

O Brasil ensinou
Depois da porcelana, vieram a tinta a óleo e, mais tarde, a acrílica. O método também mudou. Karola gosta de construir lentamente suas imagens, sobrepondo camadas finas de tinta para produzir luz, transparência e profundidade. Mas talvez a principal mudança tenha sido outra: a descoberta da cor.
“Eu não pensava muito em cor”, diz. O Brasil, com sua luminosidade, sua vegetação e sua profusão de formas, modificou esse olhar.
A natureza passou a ocupar um lugar importante em sua produção. Um jardim bem cuidado, um canteiro organizado (“sou perfeccionista”, admite aos risos a artista), uma árvore vista rapidamente pela janela de um carro: tudo pode interromper o cotidiano e virar matéria para uma pintura.
Foi o que aconteceu em Teresina, no Piauí.
Uma árvore
Karola passava pela cidade quando viu, na calçada, um abricó-de-macaco, pela primeira vez na vida. Pediu à filha que parasse. Fotografou a árvore de vários ângulos e guardou a sensação das flores perfumadas que a impressionaram. Depois, a lembrança da planta, uma espécie de árvore originária da Amazônia que tem frutos redondos que pendem em cachos e flores exuberantes, virou pintura.
Na exposição, os painéis de fundo azul aproximam o olhar das flores. É como se a artista tivesse feito, sobre a tela, aquilo que fez com a câmera: um close. Ela detalha que as estruturas arredondadas da árvore, cheias de sementes envolvidas por uma massa gelatinosa, também despertaram sua curiosidade.

O episódio diz algo sobre sua maneira de criar. Para Karola, a obra não tem início quando ela enfia o pincel no frasco ou abre uma bisnaga de tinta. Começa no momento canônico em que alguma coisa chama a atenção dela.
“É um relato do meu eu, do meu interior, porque cada quadro representa um momento.”
O mundo na tela
As viagens da artista ampliaram esse mosaico de influências. Karola encontrou referências importantes na Ásia Central e no Oriente, sobretudo no Irã e no Uzbequistão. A arquitetura, os azulejos e a combinação de cores da arte islâmica chamaram sua atenção pela capacidade de produzir riqueza visual sem perder a harmonia.
Uma dessas experiências deu origem a uma representação de dragão. A imagem está ligada a uma jornada de trem pela Ferrovia Transiberiana, em um percurso que atravessa a Mongólia e a China, passa pela região do mar do Japão e chega à Sibéria, no extremo Oriente da Rússia.
Folclore alemão
Há também uma Karola que olha para trás. As referências à cultura alemã aparecem no universo dos contos de fada, particularmente na tradição associada aos Irmãos Grimm, que no século XIX reuniram e publicaram narrativas que se tornariam parte importante do imaginário europeu.
Mas, no caso de Karola, essa memória cultural ganhou uma dimensão íntima. Ela desenhou fadas à mão para a neta. Os desenhos também estão na exposição.
O extraordinário do entorno
Karola não parece interessada em uma arte que se fecha sobre si mesma. Para ela, o artista precisa estar atento ao entorno, às pessoas, à natureza e às coisas que acontecem ao redor. É dessa atenção que surgem as imagens.
“A gente passa pela vida sem perceber o retorno”, observa.
Talvez por isso a retrospectiva tenha menos de inventário e mais de percurso. As obras não formam apenas uma sequência de estilos. Formam uma espécie de mapa afetivo.

Serviço
“Retrospectiva”, de Karola Behet Elshout
Casa Vidal — Rua Edmundo Saft, 2907, Taquara
Visitação: até 31 de agosto
De terça a sexta-feira, das 8h às 18h; aos sábados, das 9h às 17h
Entrada gratuita


