Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 25 de janeiro de 2013 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Lados

Não tenho uma posição partidária clara sobre as coisas que acontecem, tenho sim uma posição política. Mas, como é de praxe em nossas aparentes ‘democracias’, a política não pode ser dissociada do partidarismo e a confusão que se leva desse fato formou uma classe de profissionais em política que causou, e causará, enormes malefícios à implementação de uma real democracia. As coisas do jeito que estão favorecem esta democracia deslocada, representativa de poucos, lobista e corrupta. No entanto, para formar uma opinião sobre as coisas que acontecem aqui no Brasil e fora, é necessário um pouco de conhecimento e este se adquire pelo debate e pela leitura. Antes de me posicionar, por exemplo, sobre a posse, ou não, de Chávez na Venezuela, decidi ler as antinomias midiáticas brasileiras: Carta Capital e Veja.
A primeira identificada com a Esquerda brasileira e a outra com a Direita. Estes pontos, no entanto, são extremamente volúveis, afinal, sabemos que a Esquerda, desde que tomou posse, não é mais Esquerda e a Direita, desde quando perdeu, não é mais Direita. No Brasil as coisas funcionavam dessa forma: a oposição (historicamente) esquerdista sabia ser oposição e o era em todas as circunstâncias. Não poupava na demagogia e na crítica, muitas vezes rasa, ao governo da época, quando tomou o poder, porém, a história tornou-se outra. A Direita, bem ou mal, roubando ou não (com certeza roubando), conseguia desenvolver um governo, ou seja, aqui não estou dizendo que os seus princípios eram idôneos, ou carregados de um espírito de melhora, mas que os seus projetos tinham um caráter de totalidade, o SUS, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Plano Real, as privatizações… Digo tudo isso sem demonstrar minha opinião, ou seja, não falando o que era bom ou não, o que foi certo ou não, apenas defendendo que devem existir lados. Hoje vemos o governo governar sob decretos e medidas provisórias, alimentando, por meio de emendas parlamentares, uma plural base de apoio (que sempre tem fome) e uma oposição fraca, fraquíssima, quase beirando o ridículo.
O Brasil cresce somente APESAR de ambos.
O objetivo deste pequeno texto é ilustrar essa dicotomia necessária, podemos pensá-la sobre diversas óticas, para o processo democrático. A existência de lados que deve ilustrar, ao final, uma autonomia sobre o pensar que não se furte à crítica e à visão própria. Em minha opinião, aliás, assim como se tratando do atual Legislativo e Executivo federais, sobre as revistas, é que ambas não são totalmente boas. Não as compraria numa banca. Não faria assinatura. Ambas assumem linhas editoriais bastante fechadas que, ao fim de tudo, cumprem um mesmo papel. Não há escapatória. O papel é, em linhas gerais, a comunicação, mas esta é indeferida em favor da transmissão de outras coisas. Mas existe a necessidade de ambas. Quando digo isso afirmo a necessidade de lados e não que estes sejam representados, bem, pelas respectivas revistas.
Ouvi numa aula de política, de uma colega, que tal revista fazia a crítica correta do fato. Haha. Por favor. Crítica correta? Esta, felizmente, não existe, a crítica correta é aquela que você quer ouvir. Este princípio de considerar que tal pessoa, tal revista, tal instituição ou tal partido faz a crítica correta é o mesmo princípio daquelas pessoas que trocam de Igreja ou de Religião porque não querem ouvir o que o padre, rabino, pastor ou xamã tem pra falar. Assim é muito fácil. Utilizar estes parâmetros para um debate é reduzi-lo a ridicularidade do óbvio que nos leva a lugar nenhum. Aliás, acreditar que o lugar que vamos é o melhor, que as sociedades se movem em vias de melhora, por si só, já se constitui de uma obviedade ultrajante.

Bruno Marques
Taquarense, graduando em Ciências Sociais

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