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Esta postagem foi publicada em 18 de fevereiro de 2011 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Leitura

Do “Meu livro de citações”: Aos publicitários e jornalistas: deixem em paz a palavra “emoção”.

Neste recomeço das atividades escolares em todos os níveis, os professores retomam uma batalha diuturna: interessar os alunos pela leitura. Eu sou um bibliólatra. Um bibliólatra é, como se deduz da terminação da palavra, quem tem paixão por “biblion”, livro. Algo como o alcoólatra com relação às bebidas. É uma doença, só que, neste caso, boa. Exageremos um pouco: é vício incentivado pela sociedade. Assim como eu, muita gente está no mesmo barco. É, inclusive, uma política oficial da educação. Por isto, a batalha.
Até aqui, nada de novo em relação ao hábito da leitura. Só que há uma coisinha me incomodando. Como todo seguidor de uma ideia, queremos que as demais pessoas tenham as mesmas crenças, tenham as mesmas atitudes. Quando acreditamos em algo, não admitimos a existência de pensamento contrário. Para quem ama a leitura, é impossível imaginar um mundo sem ela e, por consequência, sem os livros. Não falo da leitura em geral, pois, aí, já estaríamos na seara da alfabetização. Falo da leitura por diversão, por conhecimento, por passatempo.
No entanto, como em tudo, existe o outro lado. Muita gente não lê e, pasmem os adoradores de livros, vivem muito bem sem eles. Podem chegar à presidência da República! Quantos receberam, via internete, piadas galhofando o desábito do ex-presidente Lula para com os livros (propalado por ele mesmo)! Recordo uma. Um incêndio na biblioteca do Palácio queimou boa parte das obras do presidente, mas ele, corajosamente, salvou 50% do acervo: seu livro de colorir. Esse homem foi o chefe da educação brasileira durante oito anos! Mesmo minha antipatia pessoal deve admitir, foi tão bom presidente quanto os outros.
Entre os bibliófilos, como entre as religiões, existem correntes distintas. As religiões, todas, têm a mesma finalidade, porém diferem quanto ao caminho a ser tomado para alcançar a graça. Na leitura também. As escolas recomendam somente os clássicos – como se não existissem outros – embora a condição de “clássico” seja melíflua e volátil. Não há consenso. Desde minha juventude leio sobre Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Por desinteresse, nunca me aproximei deles. De Graciliano, outro endeusado, li São Bernardo, atendendo a indicações, e afirmo: não brilhou.
Segundo Umberto Eco, “com frequência os contemporâneos se enganam ao julgar o valor de um livro”. Por isto, apesar de reputar a escrita a mais espetacular realização humana; apesar de ensinar redação; apesar disso tudo, fico desconfortável em indicar um para os alunos. Mostro-lhes por que julgo valoroso o ato, mas deixo bem clara a importância da decisão pessoal se vão ler e na escolha dos livros a ler.
Para mim, nenhum “clássico” supera “O Enigma de Andrômeda” (já li três vezes) ou uma aventura na Idade Média. Quem gosta de vampiros, esqueça os “clássicos” e leia sua história. É para isto que serve um livro. Para o prazer.
E, não esqueçam, mesmo sem leitura, há sempre a possibilidade de chegar ao Planalto.

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