
Do “Meu cinicário” – Das infinitas possibilidades de um acontecimento, a que nos agrada é chamada de “sorte”. As outras, que não nos agradam, chamamos “azar”.
“LIVRE PENSAR…
… é só pensar”. Este início de conversa usa uma das frases famosas de um grande intelectual brasileiro, Millôr (assim, estranhamente, com circunflexo) Fernandes. O cara era desenhista, humorista, cronista, teatrólogo, tradutor, filósofo e pintor da mais alta qualidade. O quadro de mais destaque da minha bem humilde coleção pictórica é uma releitura de uma Última Ceia pintada por ele, aliás tema de pintura muito comum na História da Arte. Mas não é das sobejas qualidades do Millôr que vou falar. É da frase do título.
Cada um de nós pensa. E, vaidosamente, julgamos só o ser humano, no reino animal, ter esta condição, apesar de já haver sugestões de existir alguma forma de pensamento, inclusive, no reino vegetal. Mas, ficando só no nosso cercado, quero crer em alguma ironia de Fernandes. Ele dá a entender – estou livre pensando – que, apesar dessa liberdade, vivemos atrelados a ideias padronizadas, sem gastar nenhuma grama de fosfato, quando poderíamos fazer diferente.
Neste ponto, dou um pulo para uma das mais conhecidas frases da filosofia ocidental: “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Durante muito tempo, ela foi atribuída a François-Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire (1694-1778), famoso escritor, ensaísta e filósofo iluminista francês. Ninguém nunca duvidou da sua autoria dessa frase. Porém ela foi escrita por Evelyn Beatrice Hall, sua biógrafa, em 1906. num rasgo de ousadia, tentando resumir a conduta de François-Marie, para marcar a liberdade de expressão do pensamento, uma característica fundamental do biografado. Segundo meu livre pensar (olha aí, o Millôr) a escritora gerou uma aberração literária. Para mim, desmereceu Voltaire. Como poderia alguém, com firmes convicções em determinado assunto, defender o surgimento de outra ideia, diametralmente oposta à sua, alegando amor à liberdade de expressão? Inclusive, empenhando a própria vida! Não é coisa natural. Se alguém contestar meu raciocínio, alegando chamar-se isso de “diálogo”, rebaterei: diálogo leva a uma terceira via, resultante da miscigenação de duas ideias numa solução conjunta. Do contrário, restam, apenas, duas ideias antagônicas
E, aqui, voltamos ao Millôr. Pensar livremente ajuda a encontrar soluções. Quando alguém expõe um pensamento, querendo convencer outros a segui-lo, está tentando obter militantes. E nós já sabemos o resultado da militância! Prefiro livre pensar!
Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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