Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 18 de outubro de 2019 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Mamilos continuam polêmicos, por Rafael Tourinho Raymundo

Mamilos continuam polêmicos

Estamos no Outubro Rosa, época de conscientização sobre o câncer de mama. A doença deve atingir 59,7 mil brasileiras em 2019, segundo projeção do Instituto Nacional do Câncer, mas o diagnóstico precoce eleva as chances de cura.

O autoexame continua sendo uma das principais estratégias de prevenção. É recomendado que as mulheres realizem periodicamente o procedimento para identificar nódulos no peito. Assim, nada mais natural que ensinar a elas como fazer.

Compartilhar um vídeo explicativo nas redes sociais pode ser uma ótima forma de levar informação às interessadas. É um jeito rápido de atingir milhares de indivíduos. Porém, há um problema: Instagram e Facebook bloqueiam imagens de seios à mostra. São consideradas nudez e, portanto, proibidas.

Como, então, demonstrar o autoexame mamário? Uma entidade argentina encontrou a solução. Em 2016, o Macma (Movimiento Ayuda Cáncer de Mama) encomendou um vídeo no qual um homem gordo aparecia com o dorso nu. As tetas do rapaz não violavam qualquer regra sobre conteúdo impróprio. Logo, era possível usá-lo como modelo para ilustrar os gestos circulares da axila à aréola.

A peça audiovisual conquistou 14 prêmios no Cannes Lions daquele ano, um dos maiores festivais internacionais de criatividade. De fato, a tática para driblar as restrições das plataformas digitais era bastante inventiva, quase cômica. Contudo, depois do riso, vinha a reflexão: por que mamilos femininos são censurados? (“Mamilos são polêmicos”, diria o meme de 2011, só que o assunto é mais complexo.)

Os algoritmos das redes sociais conseguem identificar automaticamente os elementos de uma imagem. Se houver um cãozinho, uma bola de futebol ou um carro na foto, tudo bem. Por outro lado, caso haja partes íntimas de um corpo humano no enquadramento, o sistema bane aquele post – e pode suspender a conta do usuário por uns dias.

Isso ocorre porque a tecnologia não é neutra. Ela reproduz os padrões morais de uma sociedade. Quem decide quais itens gráficos são adequados ou inadequados é um grupo de programadores, ou seja, pessoas. A máquina apenas obedece aos comandos.

Aí vêm as comparações. A foto de um homem de sunga na praia é perfeitamente aceitável para o Facebook. Uma mulher fazendo topless na mesma praia é indecência. Um pai descamisado, assando churrasco para a família, rende várias curtidas dos seguidores. Uma mãe com os seios desnudos, amamentando o recém-nascido, vai contra a conduta do site. Um cara obeso pode apalpar as próprias tetas livremente. Uma moça não pode demonstrar o autoexame da mama. Por quê?

A hipótese provável para tamanho desequilíbrio resvala, mais uma vez, no machismo estrutural. Em nossa cultura, a nudez feminina quase sempre está associada ao prazer do homem heterossexual. O corpo da mulher é tido como objeto erótico. Nesse contexto, qualquer peito de fora vira sinônimo de pornografia (e deve ser barrado para atender às diretrizes do Instagram). Até quando?

Mês passado, no espaço desta coluna, comentei sobre como inteligências artificiais perpetuam atitudes machistas. Houve quem dissesse que eu estava delirando. A meu ver, delírio é submeter-se a uma tecnologia obtusa que censura até imagem de estátua paleolítica sem roupa por causa de moralismos arbitrários.

Ainda bem que diversas iniciativas mundiais vêm questionando os padrões éticos e estéticos vigentes. Uma delas é o Genderless Nipples, página que publica apenas closes de mamilos. Vendo tão de perto, fica difícil identificar quais partes corporais pertencem a homens ou a mulheres. E, na falta de critério lógico para derrubar as imagens, todas permanecem on-line, independentemente do gênero.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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