Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 28 de setembro de 2018 e está arquivada em Tempo Contado.

Mar de dentro, por Doralino Di Souza

Mar de dentro

“Quanto ainda temos de dinheiro?” ela perguntou. “Não muito”, eu respondi. “Vamos ver o que dá pra comprar?”. Concordei. Seguimos andando à beira-mar. Mãos dadas. Os pés sentindo a areia úmida e fresca. Pouco depois pegamos uma rua de paralelepípedos malcuidada. Adiante tinha um boteco. Entramos. Nossa grana não deu muita coisa: um pão, um naco de salame e uma garrafa de guaraná. Voltamos à praia, sentamos em frente a nossa barraca e começamos nossa frugal refeição. O sol, ainda amenizado pela brisa, nos acariciava de tal maneira que nada poderia ser mais belo do que aquele café da manhã improvisado.

Sorvi o último gole do refri, que bebíamos na garrafa, e fiz gesto de jogá-la ao mar. Ela impediu. “Vou escrever um pouco sobre nós, algum dia essa carta será encontrada e quem a ler vai sentir inveja da gente.” Pegou caneta na mochila. No papel do pão, escreveu durante um bom tempo. Depois começou a enrolar o papel em forma de canudinho. “Olha só, parece um super baseado”, ela disse e riu e eu ri também e nos beijamos. Segurei a garrafa, ela pôs o papel dentro, em seguida a jogou ao mar. Observamos as ondas, com leves empurrões, levar nossa breve biografia mar adentro.

Naquela tarde ela vendeu seu violão e tivemos um baita jantar. Tomamos cerveja, rimos pra caramba, dançamos, corremos pela praia, nadamos e fizemos amor. Depois fomos ver o show dos Replicantes, que estava acontecendo numa lona armada na área dos surfistas. Quando todos cantavam, Surfista Calhorda, houve uma confusão. Surgiu polícia. Correria. Trombadas. Fui empurrado de um lado pra outro, caí, fui pisoteado. Desmaiei. Quando dei por mim, estava encostado numa pequena duna. Minha cabeça doía. Estava sozinho. Chamei por ela, gritei seu nome, procurei. Todavia, nunca mais a vi. Nem tive qualquer notícia sua.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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