Paralelas
Esta postagem foi publicada em 31 de março de 2017 e está arquivada em Paralelas.

Margarina saltitante

Fico impressionada quando observo meu marido procurando alguma coisa na geladeira. Exemplo: ele abre a porta, dá uma olhada geral, e se a margarina, com o manuseio diário dos conteúdos, acaba caindo fora da primeira linha de visão, ele até se abaixa, dá “um tapinha” em alguma coisa, e diz que não dá para encontrar a margarina. Claro que eu já vou à geladeira meio irritada, na maioria das vezes encontro logo, noutras procuro até localizar, porque a margarina não é saltitante e não pulará na minha mão. Está bem: já li sobre como funcionam os cérebros masculino e feminino, as diferenças entre eles, a visão panorâmica (geral) dos homens e a visão periférica (detalhista) das mulheres.

Em compensação, sei que meu marido quase surta quando, dirigindo meu carro, eu tomo o caminho mais longo para meu destino, porque não me pus a pensar no roteiro antecipadamente. Saio mais ou menos na direção pretendida, mas o pensamento se dispersa com mil coisas. Isso não quer dizer que costumo ser imprudente no trânsito, tanto que raras vezes me envolvi em acidente, apenas não boto foco no meu destino. Deve ser por isso que não gosto de dirigir. Se eu puder ficar na carona (de um bom motorista, diga-se de passagem) sou bem mais feliz; o pensamento voa, o tempo passa mais rápido, os detalhes pelo caminho ganham minha atenção; ou não, se eu estiver focada numa ideia qualquer. Suponho que isso deva revelar algo sobre minha personalidade, e temo que não me seja muito favorável. Enfim…

Por outro lado, quando vou ingressar numa rodovia, não adianta meu caroneiro dizer que do seu lado está livre. Se eu não concluir isto a partir dos meus próprios olhos e avaliação, não tem jeito de eu arrancar. Já o meu marido reclama de mim quando eu, como caroneira, não informo se o caminho está livre para ingressar numa rodovia movimentada. No meu raciocínio acontece o seguinte: Lá vem um carro, ainda está longe, mas parece em alta velocidade. Portanto, minha reação seria avançar na rodovia, já sabendo que rapidez deveria imprimir na minha decisão. Quando estou na carona, não sei como informar de forma segura ao motorista sobre distância e velocidade de um veículo em deslocamento.

Acho que, nas entrelinhas, já revelei mais algumas coisas sobre mim. Sim, prefiro apostar no meu próprio julgamento; e, sim, tenho que me sentir segura no que faço, o que às vezes me toma mais tempo do que eu gostaria para decidir alguma coisa mais complicada.

Reconhecer traços pessoais nossos e identificar diferenças nas outras pessoas é meio caminho andado para compreender a necessidade de sermos flexíveis nas nossas relações. Por que eu devo querer que o outro mude em tudo que me desagrada, se eu também não consigo abdicar de algumas características arraigadas em mim, para tentar conviver em paz?

Quem é inflexível, dado a julgamentos e críticas constantes, vive melhor sozinho. Assim, sempre saberá onde está a margarina quando abrir a geladeira em que ninguém mais mexe.

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