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Esta postagem foi publicada em 6 de dezembro de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Meio século, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Tanta gente diz praticar o bem e o amor, que chego a uma triste conclusão sobre a persistência do mal e do ódio: bando de mentirosos!

 MEIO SÉCULO

A palavra “século” marca, cronologicamente, a História de povos e instituições. Raramente, pensamos em termos individuais. Neste momento, porém, falarei de minha História. Nada fundamental para a sociedade, mas uma catarse. Olhando minha carteira de trabalho, constatei: há meio século, no dia 5 de dezembro de 1971, fui demitido da Cia. de Cigarros Souza Cruz, ligada à líder mundial do ramo fumageiro. Motivo? Desadaptação às normas da companhia. Resumindo: desobediência. E eu, apenas, querendo justificar minha seleção.

Saído do Exército (março de 1970), em Santa Cruz do Sul, já cursando Pedagogia, tornei-me professor. A cidade sediava uma das grandes filiais da cigarreira, destinada ao tratamento e armazenamento do fumo vindo dos plantadores. Em agosto, atendi um anúncio do jornal Gazeta do Sul, selecionando candidatos para a função de estagiário numa das sete usinas da empresa. Seria o primeiro degrau de um futuro profissional promissor. Mal comparando, a aceitação era como passar num vestibular para medicina. Fui aprovado entre 75 candidatos. Em 1º lugar, soube depois. Em Rio Negro, Paraná, minha usina de destino, os novos companheiros queriam ver o maluco admitido, dizendo que cigarro fazia mal à saúde! Sim, na prova conjunta de seleção, diante do tema proposto, revelei meu pensamento. Era algo como falar em corda na casa de enforcado. Assim mesmo, fui contratado: salário cinco vezes o de professor.

O gerente geral da filial, James Hamilton Reid – seu Reid – inglês grandão e simpático, lutara no norte da África na II Guerra Mundial. Talvez por saber da minha experiência na caserna (e por ver que eu escrevia com coerência superior à de seus demais colaboradores), praticamente, me adotou. Quase diariamente, me convidava para os cafés matinais da equipe de gerentes da filial. Seria isso um caso de sucesso pessoal? Eu acreditei. Porém esquecera do antagonista. Sim, meu gerente direto, responsável pelo estágio, desaprovava minha atuação. Ciúme e inveja? Mais tarde, essa conclusão foi confirmada por outro personagem da aventura, o santa-cruzense Jorge Luiz Gruendling, até hoje, grande amigo, um irmão.

A família de Jorge morava em Rio Negro, fabricando e fornecendo à usina canos de estufas para secagem de fumo. Ele ficara amicíssimo de Reid (jogavam xadrez, bebendo o melhor dos uísques) e de seus filhos. Apesar de nossa contemporaneidade na escola em Santa Cruz, não fora meu aluno, sendo-me, então, desconhecido. Entretanto, ele me conhecia e, passando as férias do verão 1970/71 com a família, foi o primeiro a me dar boas-vindas à cidade, após avistar-me no restaurante do hotel no dia da minha chegada (02/01/1971). Cito estes detalhes, afirmando: Jorge soube, depois, do real motivo da minha demissão. Talvez por isso, ainda hoje, afirme que eu tive o peito de mandar a Souza Cruz à m(*). Que o cigarro fazia mal à saúde, sim, eu disse. Mas mandá-la à m(*), não. Ao contrário, ela, sim, me mandou. Porém, para desgosto do meu gerente antagonista, não fui. Desobediente e teimoso.

Passado meio século, não me arrependo!

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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