
MEMÓRIAS DO EXILIO: AINDA ENTRE SETEMBRO E AGOSTO (ou entre o Caminho do Meio)
A estação da primavera já completa quase um mês, mas quando comecei a escrever este texto, parecia ainda estarmos no outono, e, em alguns momentos, até no inverno. Hoje ao retomá-lo, entremearam-se ao frio e ao cinza, dias de calor, mas não calor primaveril, mas de verão, trinta graus pra cima.
E, assim como o caos nas estações perdura, assim também, creio, permanece ele em nossas almas, em nossos corações, em nossas mentes. E tudo é ainda apenas uma semeadura de incertezas sobre o que é realmente joio e o que é o bom trigo, do que vai a ciar por nossa realidade, por nossas vidas.
No Face, as discussões se ampliam, pioram, se agravam, ainda mais agora com o advento da aproximação da vacina, as eleições, o retorno dos jovens às salas de aula. E uns dizem “deve ser assim” e outros “deve ser assado”. De repente não poderá haver um terceiro caminho, um caminho do meio?
Em rígidas posturas, incapazes de mudar por causa, talvez, de enraízadas ideologias, arrotam muitos “eu tenho razão” e o restante “sou eu o dono dela”, e assim parentes e amigos de longa data se ressentem, se magoam, se bloqueiam, se ofendem, e ninguém pensa “feridos todos estamos e em vez de nos unirmos para melhor suportarmos a situação, nos machucamos mais ainda jogando pedras uns nos outros,
Eu mesmo, angustiado com tudo, vou e volto em meu “terrorismo do Covid”, e aqui quero deixar bem claro que não o faço por maldade, por certas razões obscuras, sendo, no processo, inevitavelmente criticado até por parentes, alguns familiares queridos, o faço pela indignação, por estar incomodado pela indiferença dos inconsequentes, aqueles que chamam o vírus de gripezinha, que zombam dos que – em seu pleno direito – querem proteger a si e a sua família. E muitos desses ainda dizem que nada adianta, que todos vão pegar – terrorismo pior que o meu. E há os que dizem não há nada no ar, que é tudo invenção. Quem de nós vive na realidade mais surreal?
Aos que falam tudo isso, esses que se lembrem dos parentes que choram a perda de alguém pelo vírus, dos que estão com alguém internado por causa dele, digam isso para os muitos infectados que sei, de fonte segura, que passam por nossos consultórios médicos.
No fundo, porém, sabemos todos, ou deveríamos saber, ninguém tem culpa de estarmos, você e eu, com as vidas emborcadas, sem saber se vamos afundar de vez ou não. Culpa tem, quem, de alguma forma, deu origem ao troço.
E tem culpa também os que não se protegem, pois ao fazer isso, tiram o direito do outro, desrespeitando aquele que se preocupa. Deveria haver punição. Deveria haver mais e melhor fiscalização, mas sabe-se que isso, principalmente agora, em tempos eleitoreiros, não ocorrerá.
Esperemos que aqueles que chegarem ao poder, depois de nossos votos, voltem a ter consciência do que estamos passando, e esquecendo o interesse pessoal relembrem o coletivo.
Agora, enquanto encerro este texto, chegaram ventos, ventos que não param. Tortuosos, não determinam ao certo o que trarão. Quem sabe um terceiro caminho, melhor, mais justo, mais fraterno e saudável. Oremos.


