
PRESO EM MARÇO
Confesso que a expressão acima não é minha. Peguei-a emprestada de alguém. Engraçado dizer isso, pois se presume que se devolva o que se pegou de empréstimo. No caso, o faço na forma deste texto, esperando que aquela por quem ela me chegou aprecie o resultado.
Eu, por minha vez, gostei de “preso em março” pela sensação de déjá vu, de loop temporal (se não sabe o que é consulte um nerd de plantão) que ela traz em si, no caso, estamos já em setembro, mas encasulados ainda em eflúvios diversos surgidos desde que iniciamos o confinamento necessário.
Mas também gostei de tal expressão por soar como “life em mars” https://www.youtube.com/watch?v=sJB24LVx6fw , o titulo de umas das minhas canções preferidas daquele músico, que, talvez para a sorte dele, já partiu para outro plano, o David Bowie. E Marte é um lugar que, com certeza, muitos gostariam de estar agora.
Mas tal expressão é tão preciosa que me faz pensar em outra canção maravilhosa, outra que faz parte da minha playlist pessoal: a eterna e inesquecível “Águas de Março” (https://www.youtube.com/watch?v=E1tOV7y94DY). Criada em tempos em que, se o Brasil não era um paraíso, as praias eram, e isso bastava.
“São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.”
Falando em “tempos em que” quem lembra quando as férias iniciavam no comecinho de dezembro e só terminavam em inicio de março? E todos esses dias eram uma grande bossa nova. Hoje, hoje pensamos, como será o nosso próximo março? O alcançaremos? Será? Será? Será que chegaremos a dezembro? Vai ter Natal?
Pois é, setembro começou frio, escuro, e isso traz um abatimento na alma, reforçado pelas pesadas nuvens que diminuem a luz do dia, e apressam a escuridão. Nesta sexta-feira em que começo a escrever este texto, nada mais me dá vontade de fazer. Mas tenho que pensar que a primavera está próxima. Pois é, já estamos há sete meses na pandemia e vem o Beto Guedes cantar, em Sol de Primavera:
“Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos”
E alguma boa nova veio? Bom, tão fazendo as vacinas, e… é só. Ah, tem também as eleições… hum. Não, tem mais, apesar da muitas dificuldades, das penosas adaptações, estamos nós, do meio educacional, nos hibridizando mais, de forma positiva, à tecnologia, no caso, o futuro foi forçado a nos chegar mais cedo. Quando por outros motivos ( temperaturas extremas, crimes em excesso, e até os outros muitos vírus que virão) tenhamos que, quem sabe por muito mais tempo, fazer tudo por casa, já estaremos bem inteirados e com boas e bem estruturadas plataformas on-line para tal.
Descobrimos formas mais eficientes e fáceis de espalhar o conhecimento, de nos reunirmos, o que mais dia menos dia ia ocorrer. Estamos oferecendo aulas pelo whats , aplicativo antes tão desprezível, pois em sua maioria usado para inutilidades. Essas aulas me fazem lembrar os tempos em que, aos domingos, eu falava na Rádio Taquara, no programa do Pedrinho Teixeira. Você sabe que do outro lado da linha, na expectativa, há um público a tua espera. Tá certo, não é um grande público, nem sempre, mas é de fé, e ansioso para ouvir o que você irá falar e mostrar. E não dá para decepcioná-lo.
O bom disso, estamos conseguindo, professores, alunos, coordenações e direções, estamos fazendo os maiores esforços para encerrarmos bem o ano letivo, mesmo que esse se estenda para além do que for necessário.
Que possamos chegar ao outro março, ao março de 2021, e que até lá possamos contemplar “as águas”, e que essas nos venham límpidas, tranquilas, balsâmicas.
11.09
pandemia, 2020


