Inge Dienstmann

Meninos homens versus homens meninos

Coisa prazerosa é identificar a personalidade de pequenos homens. O que são eles? São mais que meninos, oferecem além do que comumente se esperaria deles. São respeitosos com amigos e colegas, com os adultos de convivência. São decididos nas suas vontades, arrojados, mas não precisam bater, empurrar, humilhar nas brincadeiras com os iguais, nem gritar à toa  e responder com grosserias. São também participativos. E com meninas, eles se tornam cuidadosos, observadores, alguns são capazes de gentilezas cavalheirescas.

E agora aqueles outros: os homens meninos. Já não é com empolgação que se pode falar deles. Num contato rápido, até dá para rir de algumas criancices, mas cansa rápido. Porque eles precisam ser sempre o centro das atenções. Falam muitos tons acima da normalidade, de forma que a voz do homem menino é sempre a mais destacada do grupo. É um tipo que banaliza brincadeiras de mau gosto, também precisa ostentar em algum aspecto (o brinquedinho do moleque), necessita impor vontades, sobressair-se nos ambientes em que transita. Não tolera rejeição; quando percebe que desagrada a alguém, passa a impor ostensivamente suas atitudes inconvenientes. Para ser um homem menino, não é preciso ser um babaca total. Alguns até trabalham bastante, enfrentam desafios, são bem sucedidos financeiramente. As companheiras, na maioria das vezes, fazem o contrapeso. Pacientes, assumem o papel contemporizador diante dos importunados pelos homens meninos. É comum que digam “ele sempre foi assim, não tem mais jeito mesmo”.

Sorte sua se uma dessas figuras não for seu vizinho. Porque, se for, certamente colocará suas músicas de gosto peculiar num volume que se imponha a dois quarteirões de distância. Afinal, é abusivo e inoportuno, mas o homem menino acha que ele pode, ainda não cresceu e é birrento. Isso quando a figura não chegar estourando a surdina da moto no sábado à tarde, quando você merecidamente tentava sestear.

Não desejo aqui afrontar a teoria de que não se deve abandonar a criança que há dentro de cada um de nós.  O que não pode é deixar a criança subir no telhado para lançar ovos nos passantes. Leveza de espírito, disposição para rir e brincar não fazem mal a ninguém, desde que realmente não invadam o quadrado alheio.

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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