É um pouco difícil resumir em poucas linhas quem foi meu pai e o que ele representou para a comunidade de Taquara e também para o nosso Estado. As mais belas palavras, relatos e memórias a respeito da vida dele já foram e ainda serão contadas por pessoas bem mais talentosas do que eu, e é isso que me conforta neste momento. No entanto, com a visão peculiar de quem, nesses últimos anos, meses e dias, conviveu com ele, trabalhou com ele e o assistiu, ficando ao seu lado, dia e noite, junto a um leito de hospital, pude reassegurar, sem exagero, a minha certeza de que se tratava de um homem que sempre me surpreendia, um ser raro de se encontrar, mesmo quando já debilitado pelo longo e desgastante tratamento médico.
Meu pai surpreendia não pela humildade, inteligência, pelo caráter, idealismo, trabalho e disciplina, qualidades que ele tinha de sobra e que todos reconheciam, mas principalmente pela sua compaixão e generosidade para com todos, que às vezes vinham em busca de conselhos ou até mesmo de um dinheirinho emprestado, o que ele nunca negava. A respeito do seu desapego em relação a bens materiais, posso citar como exemplo de que não foram uma, nem duas, nem três vezes que, reunindo condições de adquirir bens materiais para a nossa família, considerou mais útil empregar o seu merecido dinheiro na aquisição de peças para o seu maior projeto de vida desses últimos anos: o Museu Tecnológico do CIMOL. Penso eu que ele entendia ser isso mais útil para as próximas gerações: trocar de carro, adquirir uma tevê de última geração ou fazer aquela viagem inesquecível deveria ficar para um segundo plano, no que ele estava coberto de razão. Tais coisas poderiam esperar para outro momento.
Outra qualidade do pai é que ele não suportava ver pessoas ou animais sofrendo: ele se indignava. Meu pai tinha um apreço especial pela nossa gatinha, a Chris, que teimava em subir na cama de madrugada e se acomodar sem cerimônia no cobertor entre ele e a mãe. O pai acordava mais de uma vez durante a noite, mesmo nas noites frias, caminhando pelo piso gelado, indo até a área para servir ração a ela. É claro que a Chris às vezes abusava da generosidade dele, mas o pai pouco se importava.
Esses foram brevíssimos e singelos relatos da vida do meu pai, Harald Bauer. Aproveito, em nome da nossa família, para agradecer ao excelente atendimento do corpo clínico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e aos médicos Ricardo Stein, Roselane Willrich e ao doutor Paulo Camargo, que revelou-se, antes de tudo, um amigo da família, acompanhando a gente até o último fio de esperança. Desejo agradecer também a todos que conviveram com o meu pai, o respeitaram ou até mesmo o desrespeitaram, se divertiram com suas passagens ou derramaram lágrimas com a sua partida, aqueles que, por respeito, tiveram a paciência de escutá-lo, mesmo nos momentos em que ele não tinha razão, respeito esse que só é conquistado por quem tem história e que agora faz parte dela.
Marcus Martins Bauer


