
MINHA EXPERIÊNCIA COM A COVID
Ela tinha 89 anos… 84 quando passei a dividir meu lar com ela.
Ela era rabugenta e engraçada. Sim, as duas coisas ao mesmo tempo. Ela reclamava do simples e fazia piada do complexo. Adorava pastel com Coca-Cola e ganhar pijamas novos. Não sei bem o porquê, mas ela adorava ganhar pijamas. Ela teve a honra de ter uma sessão nos nossos Facebooks com o título: “Pérolas da Dora”. É que ela tinha tantas, as mais diversas, sobre os mais variados temas.
Era brava também. Assistiu a votação do “impeachment” da Dilma proferindo a cada voto “sim”, um palavrão diferente e que é melhor não transcrever aqui – perigo de censura – kkkk. E ela dizia: “Se eu fosse a Dilma não pegava esse papel, ou rasgava na cara deles”. É, ela era de esquerda. Votou até seus 87 anos na eleição de 2018, firme e convicta de seu voto no projeto popular de Brasil.
Ela era sem-vergonha também. Não perdia uma oportunidade para um deboche. Não importava o motivo ou a pessoa, se ela visse a oportunidade ela puxava da cartola seu sarcasmo e fazia todos por perto rirem.
3 anos de convivência diária e mais 3 anos de convivência aos fins de semana. Quando estava de bom humor era a pessoa mais bacana do mundo. Quando acordava “atravessada” era melhor sair de perto.
Adorava me ver dançar (eu não sei dançar, então imaginem o porquê dela adorar me ver dançando); sim, obviamente para sacar mais uma de suas pérolas e rir da minha cara. Mas mesmo assim eu dançava. Ou, talvez por isso eu dançasse.
Ela dizia: “Me dá mais um gole de suco”, e eu literalmente colocava no copo “um gole de suco”. Ela bradava: “Simone, olha essa guria que abobada”. E ríamos…
E cada vez que ela agradecia um favor, eu dizia: “Obrigada nada, são 10 reais”. E ela rapidamente: “Simone, olha aqui, tudo é 10 reais”. E eu retrucava: “Se reclamar, cobro o juro e fica 15”.
E assim passamos 6 anos de nossas vidas, nos irritando, brincando e rindo.
Mas um dia a “Rainha do Deboche” se foi.
E nem pudemos nos despedir. Depois de alguns dias internada, foi para a intubação e a perdemos. Sem adeus, sem despedidas, sem um tchau. 3 MINUTOS entre a saída do carro funerário e o tempo de eu colocar uma flor do Manacá-da-Serra que compramos pra ela porque ela queria muito e que ela nem chegou a conhecer, em cima de um caixão fechado com um corpo envelopado dentro. 3 MINUTOS. As últimas palavras dela, agarrada em minhas mãos, foram: “Ana, me segura!”, antes de ser sedada para a intubação. Eu segurei. Segurei firme. Mas não firme o suficiente. E a Rainha do Deboche se foi. Sem nem podermos nos despedir. 3 MINUTOS. E uma última lembrança: “Ana, me segura!”.
Não deu, Dona Dora, mas eu levei pra ti um pedacinho do teu Manacá. E ficou de ti muita coisa em meu coração.
O Covid levou a Rainha do Deboche, a Dona Dora, a Princesinha do Lar (como a chamavam no Lar onde ela ficava durante a semana enquanto trabalhávamos). Deixou uma filha, uma nora, duas netas, uma irmã e muita gente que a queria bem, abaladas.
E o que me perturba e me faz sentar hoje e fazer esse desabafo é o descaso que acompanho por aí. Na onda do “eu sou jovem, e só vou ter sintomas leves”, matam-se pais, mães, avôs e avós, tios e tias, e demais familiares.
E assim, entre perdas e não-despedidas, se cria a sensação de desesperança e preocupação pela qual sou tomada hoje. E acredito que muitos mais também se sintam assim.
Então, deixo um questionamento pros “aglomeradores de plantão”, os que não usam máscaras, os que ainda acham que é uma gripezinha, que não se importam com suas vidas: é assim que vocês querem se despedir de quem vocês amam e matarão com sua irresponsabilidade?
Em homenagem a Doracy Goldschmidt.
Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
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