Polícia

Ministério Público reafirma tese de homicídio por asfixia em caso das gêmeas de Igrejinha; defesa contesta acusações

MP sustenta que asfixia foi a causa das mortes, enquanto defesa contesta posição, questiona investigação e pede soltura da mãe.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) reafirmou, nesta quinta-feira (6), sua tese de que as gêmeas Manuela e Antonia Pereira foram mortas por asfixia, contrariando os laudos periciais que classificaram a causa das mortes como “indeterminada”. Os óbitos ocorreram em outubro passado, em Igrejinha. A defesa da mãe das crianças, Gisele Beatriz Dias, acusada dos crimes, voltou a argumentar que não há provas científicas que sustentem a acusação e pediu o arquivamento do processo.

Posição do Ministério Público

O promotor de Justiça Marcelo Tubino, coordenador do Centro de Apoio Operacional do Júri, declarou que o Ministério Público segue convencido da autoria dos crimes por parte da mãe. Segundo ele, a asfixia sempre foi uma das linhas investigativas consideradas e descritas na denúncia. “O simples fato de ser a última pessoa a estar com as vítimas, em ambiente trancado, sendo descartada morte natural pela perícia, que aponta sufocamento mediante objeto macio ou saco plástico, são razões suficientes da autoria dos crimes, na visão do Ministério Público”, afirmou Tubino.

Ainda de acordo com o MP, a busca por provas de envenenamento ocorreu devido a pesquisas realizadas no celular da ré sobre substâncias letais, o que teria consolidado uma suposta intenção premeditada.

As gêmeas faleceram com oito dias de diferença, em outubro de 2024. Conforme o auto de necropsia, uma delas apresentou hemorragia pulmonar penetrando nos espaços aéreos com insuficiência respiratória. A segunda criança chegou ao hospital com sangramento na traqueia e suspeita inicial de intoxicação. O MP argumenta que ambas as mortes ocorreram por meio cruel e que a perícia indicaria sinais de asfixia.

O que diz o IGP

O Instituto-Geral de Perícias (IGP) informou, em nota nesta quinta-feira, que concluiu as análises sobre a morte das gêmeas. Segundo o laudo pericial, a causa do óbito foi um processo de asfixia, porém os achados não foram específicos para caracterizar uma asfixia mecânica, “condição que ocorre quando a respiração é impedida por uma ação física, tal como na obstrução dos orifícios respiratórios, no estrangulamento, na esganadura ou na compressão torácica, dentre outros”.

Ainda conforme o IGP, os exames não identificaram sinais de violência física ou sexual, nem indícios de luta nos corpos das crianças ou no ambiente onde foram encontradas. As análises laboratoriais testaram cerca de 350 substâncias, incluindo venenos e medicações, mas todos os resultados foram negativos.

Os dispositivos eletrônicos analisados até o momento não apresentaram evidências digitais ligadas ao caso, tampouco registros de buscas relacionadas a envenenamento, asfixia ou intoxicações.

O laudo aponta que a perícia não encontrou elementos materiais que comprovem a ocorrência de uma morte violenta no local. No entanto, o IGP ressalta que não é possível descartar totalmente a hipótese de uma morte violenta por substâncias não detectáveis ou causas naturais sem vestígios visíveis.

Defesa questiona acusação e pede trancamento do processo

A defesa de Gisele Beatriz Dias rechaçou a versão do Ministério Público e criticou a manutenção da acusação mesmo após os laudos do Instituto Geral de Perícias (IGP) não apontarem substâncias tóxicas nos corpos das crianças. O advogado José Paulo Schneider afirmou que o MP estaria “brigando com a ciência” ao insistir na hipótese de envenenamento.

“Os diversos laudos juntados pelo IGP confirmam aquilo que a defesa tem dito desde o início: não há qualquer elemento científico que comprove a hipótese de morte por envenenamento ou intoxicação”, declarou Schneider. Ele destacou que os exames testaram centenas de substâncias e não encontraram vestígios de veneno ou intoxicação no sangue das crianças.

A defesa também apontou que o laudo necroscópico de Antonia, anexado recentemente ao processo, afastaria a tese de hemorragia pulmonar e não descartaria causas naturais para a morte. Segundo Schneider, a suposta semelhança nas circunstâncias das duas mortes, sustentada pelo MP, não se confirma com base nos documentos técnicos.

Além disso, a defesa questionou o fato de a necropsia de Antonia, realizada no dia do falecimento, só ter sido incluída nos autos agora. “Esse documento, que afasta por completo as teses esdrúxulas defendidas pelo delegado e pelo promotor, está pronto desde o dia da morte e foi juntado só agora. Por quê?”, indagou Schneider.

Diante dos fatos, a defesa reiterou o pedido de trancamento do processo e a libertação imediata de Gisele, alegando falta de provas concretas sobre a suposta autoria do crime. O caso segue na Justiça, e a defesa afirmou que buscará responsabilização para eventuais arbitrariedades no decorrer das investigações.