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Publicado em 17/01/2020 14:43 | Atualizado em 17/01/2020 14:44 Off

Minúsculas crueldades

Embora não fosse um turista preguiçoso, desses que escapa do mormaço numa cidade qualquer e corre pros bares ou pubs, era assim que eu me sentia. Fechei o notebook, já que estava sem inspiração pra escrever, pedi um chope e cravei os cotovelos na mesa. Enquanto esperava pela bebida, deixei o olhar passear solto na rua, foi daí que a avistei. Uma criança ainda. Devia ter uns sete anos, mais ou menos. Vinha devagar pela ladeira, era miúda e trazia a tristeza agarrada ao braço. Olhava pras pessoas. Tentava se aproximar num gesto tímido, mas era enxotada. Ou se tornava invisível. Então olhou pra onde eu estava, defronte o bar, sentado junto à mesinha de madeira.

Logo parou ao meu lado. O rosto ossudo. Os olhos assustados de criança carregavamum cansaço adulto. Me disse que tinha fome. Pediu algo pra comer, ou algum dinheiro.  Eu falei que não. Ela continuou ali. Eu a encarei e disse num tom de voz ameaçador: “VAZA!” A menina deu dois passos para trás. Baixou os olhos pequenos e saiu rapidinho. Fiquei olhando praquela criaturinha enquanto se ia completamente alheia ao que tantos chamam de futuro. Parecia cachorro caído da mudança. Ou pior: filhote abandonado pelos donos à beira de uma estrada. Foi diminuindo no meu campo de visão até sumir numa esquina.

Nisso, a atendente do bar trouxe meu pedido e o pôs sobre a mesa. Depois ofertou desculpas pelo incômodo causado pela presença da menina. “Eu já a mandei sair daqui, já xinguei, dei chute e tudo, mas, ela sempre volta. Acho que é porque alguns clientes dão comida pra ela.” A mulher, uma senhora de mãos redondas e faces rosadas, ficou esperando minha aprovação ao comentário. Permaneci calado e ela entrou de volta ao bar. É estranho como as pessoas, duma hora pra outra, deixam latente sua natureza ruim. Eu fiquei pensando sobre isso. O mais faceiro dos humanos pode se esbaldar nas minúsculas crueldades que o cotidiano oferece. Aquela criança, no seu tranco diário, contempla essas crueldades em diversas escalas.

Eu tinha sido um escroto. E uma outra pessoa,ainda mais escrota, além de confirmar minha escrotice, quase me parabenizou.Talvez as pessoas estejamsob efeito de uma espécie de miopia, ou de uma lente que as deixa com um estreito raio visual. Isso limita qualquer complexidade. Talvez a humanidade de hoje não seja em nada melhor que a de ontem. O mundo gira sempre em redor de si mesmo, como um cãozinho atrás do rabo.

Enquanto bebericava meu chope, pensava nessas coisas. Pensava no meu pessimismo irremediável. Na minha falta de esperança na raça humana. No quanto a humanidade é má. E, sendo eu parte dela, obviamente não há nada de errado em me tornar pessoa má e escrota. Decerto será mais fácil viver no mundo. Ou será que não? Essa conta não fechava pra mim. No fundo eu não queria me render.Gritei pra garçonete preparar um sanduíche e pegar refri em lata. Pedi pra embrulhar, pois eu iria levar. Paguei. Juntei minhas coisas e saí no passo ligeiro. Com sorte alcançaria a menina antes da próxima quadra.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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