Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 4 de fevereiro de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Na corda bamba

Ainda que o lado negro do ser humano aflore todos os dias em atos de violência e demais gestos menos nobres em relação a seus semelhantes, sempre é possível testemunhar, em alguns momentos, o altruísmo e a solidariedade. As tragédias e situações de calamidade, especialmente, despertam o instinto coletivo de sobrevivência. Há uma comoção generalizada em casos como os desabamentos e mortes causados pela chuva, recentemente, no Rio de Janeiro, mesmo que a chuva ocupe o seu devido lugar na natureza, desde sempre.
O assunto pode já ter quase se esgotado em toda a imprensa, que logo se preocupará com outros acontecimentos, mas me chamou atenção a preocupação de alguns voluntários, solidários não só com as pessoas flageladas, mas com os animais, tão vítimas quanto os sobreviventes humanos nessa situação específica. As cenas exibidas pelas emissoras de televisão, mostrando uma mulher agarrada ao seu cachorro em meio à enxurrada que quase a levou, mostram que ela não abandonou o fiel companheiro nem naquele momento de vida ou morte. Abraçada a ele, ao ser resgatada por moradores com uma corda, lutava heroicamente para salvar a sua vida e a do cão, que acabou sendo levado pela força da correnteza, assustado com a situação desesperadora.
Duas vidas, o mesmo valor, ao menos para aquela mulher e para aqueles que, como eu, não conseguem medir quem vale mais como ser vivo, seja humano ou não.  Nesse caso, quem deveria ser salvo? A mulher, dirão praticamente todos os que viram as imagens e os que me leem agora. Mas a atitude daquela mulher, agarrada ao cão apesar da fúria da correnteza, sem vacilar, comprova que ela e o animal tinham a mesma importância. Uma questão de sorte e da providência dos moradores que agilizaram o socorro para ela, porque o cão não estava nos planos de quem jogou a corda.
A iniciativa de levar o cachorro agarrado ao peito foi da própria mulher. E nem é preciso fazer muito esforço para imaginar a sensação de impotência e de desespero dela diante da força das águas, tendo que deixar o companheiro ir embora para sempre. Quem ama os animais sabe do que eu estou falando. Vidas são vidas e ponto final. Quem disse que valemos mais ou menos do que um cão? O argumento da compaixão para mim é o único que faz sentido, seja em relação aos homens ou aos animais. Talvez, no caso dos animais, como este, eu ainda alimente mais compaixão, justamente por se tratar de seres indefesos, incapazes de poder optar, escolher e de sobreviver sem o seu dono por perto.
Mas não se iludam. Há algumas pessoas por aí, disfarçadas de solidárias, voluntárias e tudo o mais, que, do alto de sua arrogância, ignoram e desprezam seres que julgam inferiores por entender que elas são superiores. Em quê? A propósito, resgato o ditado que diz mais ou menos assim: “Quanto mais conheço os seres humanos, mais admiro os meus cachorros”. Nada pessoal, mas certamente bem oportuno para refletir sobre quem merece ser resgatado pela corda em meio às águas turbulentas.
Roseli Santos
– jornalista –

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