Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 18 de outubro de 2013 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Na Mesma Moeda

Em certo silêncio estagnado e morto, assim como naquela macilenta e pálida inércia, ao mesmo tempo em que tudo parece estar tão certo, sinto como se, talvez, de tão certo, esteja tudo tão errado. Talvez tudo esteja como deveria estar e eu é que esteja errada. Inadequada. Grande ou pequena demais. Romanesca, romântica ou aérea em abuso para essa insana e glacial realidade. Na verdade, sei que está tudo muito bem.
Cada parte prática da minha vida está concreta, até demais. Clara e reta. As escolhas, acatadas e contentadas, amistosas. Mas algo, eu sei, eu sinto, que falta. E o pior de tudo, eu sei o que é. Barbadinha então, não?! Não. Nem um pouco. O meu coração, há tempo, já não está mais sossegado. O que anseio é amplamente simples, até mesmo infantil. Bucólico, por certa ingenuidade.
Minha cabeça anda pesada e eu precisava de um encosto, quente e afetuoso. Será que cordialidade e carinho ainda existem? As pessoas ainda se importam, de verdade, com os outros, a ponto de mover montanhas, atravessar rios inteiros e descer ao inferno por alguém? Venho sentindo a carência opaca e triste de me sentir importante, valorizada, até mesmo única. Sabe a sensação de ver que um sorriso ludibria alguém? E a de saber que só a presença é capaz de causar borboletas no estômago? Sinto falta de afagos protetores, atentos. Eu não cresci tanto assim a ponto de não mais precisar de um colo morno, aconchegante. Mas eu cresci o suficiente para poder, de mulher, ser ressaltada.
Meu coração vem segmentado e, quando falo, minha voz é de um outro alguém. Alguém, quem, não sei. Metade do meu coração, não sendo só um órgão, uma bomba vermelha posta a latejar, sabe o que é, o que sente, como sente. Metade dele sabe da fragilidade, vulnerabilidade e complacência compostas em suas artérias, cabíveis em seu espaço. Meado dele admite e honesto é, comigo. Já a outra metade, madrasta errante, sufoca meu peito, esmagando cada pedacinho de sinceridade pessoal arduamente conquistada.
Essa metade, de mim, do meu íntimo, ou da minha irrequieta mente, não tolera qualquer fio de covardia ou fraqueza. A cada minuto, a cada teste a mim imposto, tenta transformar-me em um leão ferozmente atroz, aguerrido e sedento. Certa parte do que quer que dita as regras aqui dentro não consente meu papel, já destinado, de cordeiro. Passivo. Frágil. Afável. Amedrontado e, até mesmo, acovardado. Afetuoso. Esse lado meu, ingrato opressor, arrogante tirano, me condena por ansiar por cuidados, carinhos. Por cafunés. Por sorrisos, sinceros. Condena minha cobiça da atenção, da vontade. Daquele interesse-aspiração. Me chama de fraca, por isso. Fraca, eu? Desculpa, mas isto não. Nunca fui fraca, mesmo quando desabei ao chão. Esse meu lado almeja praticidade e a fria objetividade. Maria calculista, diz meu emprego dever ser. Só que, qualquer parte disso, nada a ver, comigo, tem.
Eu sou sentimento, eu sou apego. Sou afeição e dedicação. Coração. Sou dos outros, antes de ser minha. Das pessoas, dos animais. Eu sou da alma, do peito. Do amor. Do errante, mas vivente. Da ternura, do sabor, e até mesmo, da dor. Sou da paixão, impiedosa, inteira e completa entrega. Sou da vida e quero vida. Muita vida, muito sol, muito ardor. Entrego o que tenho, ou o que sou na forma contornada dos meus braços entrelaçados. Em um abraço, dedico um mundo, meu mundo. Diante disto, será que é, será que pode ser, tão estúpido querer, de dentro desejar por sentir faltar, receber, sentir ter, tudo que eu sou capaz de dar.

Julia Luiza Schäfer
Estudante, de Taquara

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