
Na torrentlandia
Quando chegaram as primeiras tvs a cores aqui numa então provinciana Taquara, eu era menino, tinha por volta dos onze anos, e lembro que, muito moleque, vez que outra eu e um pequeno grupelho burlávamos as aulas para ficarmos que nem cachorro diante de aparelho de assar frango, em frente a vitrine da Bohrer & Cruz, onde uns dois aparelhos ficavam ligados – um deles num canal de desenhos.

Naquela época tais mercadorias eram produtos destinados só a “doutor”, gente de muito pila. O resto ficava como eu, olhando através da vitrina da loja. Lembro que da minha turminha de amigos daqueles dias, só um logo adquiriu tal aparelho, seu pai era um fazendeiro de São Chico que viera morar em Taquara.
As tvs coloridas baratearam, muito graças aos campeonatos de futebol, as copas e certas datas festivas, tempos em que geralmente aparelhos eletrônicos são oferecidos a preços bem menores. Então, uns cinco anos depois, outra tecnologia, que para nós, fascinados, quase parecia alienígena, aterrissou em nossa terrinha: o videocassete. Suprema maravilha. Tal engenhoca, além de nos por em contato com filmes que nos pareciam inatingíveis e com outros que nem sabíamos que existiam, ainda gravava programas da Tv. Querem felicidade maior para quem, naquelas alturas, já era discípulo fiel das telas pequenas e grandes.
Mas os videocassetes, assim com as tvs a cores, eram também coisa para doutor, e mais especificamente para os que trabalhavam com filmagem de eventos, pois unindo dois videocassetes por um cabo, se conseguia fazer a edição das filmagens. Foi desse modo que realizamos o que é considerado o primeiro curta-metragem feito em Taquara. https://www.youtube.com/watch?v=cqsPfYXR244 .
Foi de novo o pai de um amigo, já de um bando novo formado na adolescência, quem primeiro adquiriu um videocassete e por uns dois anos em sábados, domingos e feriados, faça chuva, frio ou sol, nos reuníamos na casa desse amigo, revezando-nos no pagamento dos “aluguéis”, para nos deliciarmos com as “fitas” que nos traziam as mais inimagináveis produções, e o divertido é que, por pior que fossem, tudo se via numa boa. De tudo se aproveitava um pouco. Não éramos tão chatamente críticos como somos hoje.
O legal também é que, como a maioria das locadoras só conseguia cópias, não havia quase informação nenhuma em fichas ou capas, às vezes só título e gênero, às vezes só título. Levava-se para a casa o mistério. Quantas preciosidades assistimos. Coisas que depois procurei pela internet, que pedi aos “piratas” que baixassem, que tenho na minha coleção para matar a saudade, mostrá-las às novas gerações. Algumas cópias vinham com imagem boa, outras não. Lembro que abandonei “Paris Texas” (foto), pois a imagem era desbotada e eu sabia que uma das coisas que valorizam tal filme é justamente a fotografia. Fui assistir completo só agora, na Netflix, em tv de 40 polegadas.
Nossa diversão era revirar as prateleiras pegando coisas sobre as quais já tínhamos referencias, ou totalmente obscuras, e esperar com ansiedade o que estava por chegar. Havia algumas informações em alguns programas que começavam a dar espaço para comentar “lançamentos”, assim como nos jornais, havia a revista Vídeo News, que entre as novidades de equipamentos de filmagem e reprodução trazia páginas com sugestões de filmes e matérias sobre o mundo do cinema. Tinha a Cinemin, só cinema, SET- cinema e vídeo, também foram lançados os guias, verdadeiras bíblias onde constava tudo o que estava sendo lançado oficialmente no cinema e em fitas, a maioria deles trabalho de pesquisa do Rubens Ewald Filho. Tenho vários.

Com o salário de um dos meus primeiros empregos comprei meu vídeo. Depois vieram os DVDs com seus discos de menus que se mexem e aquele monte de informação extra e nunca esqueço quando, revendo “O Senhor dos Anéis” numa tvzinha Philips e em disco, num momento em que os elfos falam entre si a voz de reverberou pelo quarto de um lado para o outro me dando a impressão de que estavam ali junto comigo. Vieram então os Bluray, pelos quais passei direto, e hoje não sei se me seriam necessários. Depois, por anos assinei Sky, quando essa realmente prestava.

Então, faz uns dois meses, um colega meu me ensinou a baixar filmes e séries, os famosos torrents. Gente, como isso agora está fácil e rápido. Se antes um filme levava até 24 horas para baixar, hoje, em vinte minutos, ou menos até, isso acontece. Pesquiso coisas que queria ver, que quero rever, baixo numa qualidade excelente, e com legenda, pois quero a autenticidade das vozes, das expressões. Assisto quando quero, deixando tudo em pendrive. Claro que preferia ver muitos filmes em telão, mas com o excesso de dublados e com os horários inconvenientes em que colocam os legendados nos cinemas, então a opção é assisti-los no conforto do lar, sem precisar pegar estrada e sem despesa nenhuma.
Além do mais não preciso pagar por programações que não valem a mínima, escapo daquelas inscrições burocráticas das plataformas, e o fato de você ter que assinar várias delas (concorrem umas com as outras) para poder ver o que quer.
Entrar nos sites que te liberam a baixação está sendo como voltar aos tempos das videolocadoras, pois como as prateleiras delas, a Torrentlandia é um universo novo a ser explorado.
O resultado disso você pode conferir nestas minhas páginas, Caçador de séries perdidas (https://www.facebook.com/indianalouishaiml/?modal=admin_todo_tour,) e Filmes, seriados, desenhos (https://www.facebook.com/Filmes-seriados-desenhos-530866606951028/).


