Miscelânea
Esta postagem foi publicada em 3 de abril de 2021 e está arquivada em Miscelânea.

Nada a comemorar, por Ana Maria Baldo

NADA A COMEMORAR – PARA QUE NUNCA SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA

A coluna de hoje vem com o propósito de informar. Por isso, não será escrita por mim, mas sim por quem viveu a realidade da ditadura militar no Brasil.

Os trechos e informações abaixo foram extraídos do Projeto Brasil: Nunca mais, que analisou mais de 1 milhão de páginas de 707 processos do Tribunal Superior Militar de 1964 a 1979. O projeto foi realizado entre os anos de 1979 a 1985, na clandestinidade.

“Seleção de algumas formas de tortura para exemplificar: todas descritas nesses processos.

Apertar as unhas com alicate; Amarrar o pênis para não urinar; Comer fezes e tomar urina alheias; Estupros; Estupros de esposas e filhas dos presos na sua frente; Introdução de bastão elétrico, cabo de vassoura, objetos não identificados, baratas e ratos no ânus e nas vaginas dos prisioneiros e prisioneiras; Introduzir velas acesas nos ânus e vaginas dos prisioneiros e prisioneiras; Abortos devido à tortura; Beber água da latrina; Asfixia, afogamento, espancamento e estrangulamento; Mordidas de cães; Choques elétricos no anus, vagina, pênis e seios; Ameaças com cobras e animais peçonhentos; Dedos martelados; Enterrar vivo; Cortar orelhas e dedos; Esmagar testículos; Marteladas nas juntas; Órgãos genitais perfurados com agulhas; Queimaduras de maçaricos; Unhas arrancadas; Urinar no rosto dos presos e presas; etc.”

Trechos para elucidação:

“A tortura foi indiscriminadamente aplicada no Brasil, indiferente a idade, sexo ou situação moral, física e psicológica em que encontravam as pessoas suspeitas de atividade subversivas. Não se tratava apenas de produzir, no corpo da vítima, uma dor que  fizesse entrar em conflito com o próprio espírito e pronunciar o discurso que, ao favorecer o desempenho do sistema repressivo, significasse sua sentença condenatória. Justificada pela urgência de se obter informações, a tortura visava imprimir à vitima a destruição moral pela ruptura dos limites emocionais que se assentam sobre relações efetivas de parentesco. Assim, crianças foram sacrificadas diante dos pais, mulheres grávidas tiveram seus filhos abortados, esposas sofreram para incriminar seus maridos”.

A bancária Inês Etienne Romeu, 29 anos, denunciou:“(…) a qualquer hora do dia ou da noite sofria agressões físicas e morais. “Márcio” invadia minha cela para “examinar” meu ânus e verificar se “Camarão” havia praticado Sodoma comigo. Este mesmo “Márcio” obrigou-me a segurar o seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante este período fui estuprada duas vezes por “Camarão” e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros.(…)”

Francisco Ferreira de Oliveira: “Quando eu cheguei no DOPS, tinha um tal de… ele era apelidado de Lúcio Fé, ele pegou, […] com a licença da palavra, ele pegou uma cordinha, um cadarço, e amarrou nos meus testículos e ficou batendo um punhal, puxando, e falou “eu vou te castrar, seu filho da p….”. Com a licença da palavra, “vou te castrar, seu filho da p…” e deu um corte nos meus testículos […] E ficou aberto, eles não costuraram, eu fiquei internado no Hospital Militar, eles não costuraram. […] No ânus, eles enfiavam um cano e soltavam um rato vivo dentro do cano.”

Soledad, poeta e intelectual paraguaia, cruelmente torturada e morta em Pernambuco. Estava grávida de 4 meses; foi encontrada nua, dentro de um barril, em uma poça de sangue, tendo aos pés o feto de 4 meses expelido durante a sessão de tortura. Levou 4 tiros na cabeça enquanto estava algemada depois de ser terrivelmente torturada.

Pesado. Muito pesado. Mas necessário para que a gente siga lutando para que NUNCA MAIS ACONTEÇA!

Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]