Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 5 de julho de 2021 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Não podemos nos acostumar, por Rafael Tourinho

Não podemos nos acostumar

Uma velha máxima do jornalismo diz que, se um cachorro morde uma pessoa, não há nada demais aí. É da natureza do cão morder para se defender. Por outro lado, se uma pessoa morde um cachorro, então vale manchete.

O inusitado vira notícia. Tudo aquilo que não é comum, que tem um elemento atípico ou que soa absurdo merece ser contado, ainda mais se for de interesse público.

É por isso que tragédias ganham espaço na mídia. Não se trata de explorar a desgraça alheia (embora alguns programas vespertinos da TV aberta adorem apelar ao sensacionalismo). É que o fato, de tão surpreendente, merece ser contado.

Acontece quando um prédio residencial desaba em Miami. Ou quando mais de 520 mil brasileiros morrem numa pandemia. Esses eventos fogem ao que se espera do cotidiano.

Só que faz parte da condição humana adaptar-se às situações adversas. Se uma informação impactante é reiterada continuamente, o choque pode dar lugar à resignação, à indiferença, ou mesmo ao cansaço.

A pandemia, por exemplo, se arrasta há tanto tempo que muita gente não aguenta mais ouvir falar dela. E ainda reclama dos veículos de imprensa: “os jornalistas só apontam o lado ruim da situação!”

Seguindo essa lógica de relativizar o absurdo, alguns sujeitos insistem em trazer à tona dados irrelevantes, na tentativa de soarem positivos. “Ah, mas milhões de pessoas pegaram covid e se curaram. Isso a Globo não mostra!”

Desculpe-me, mas comemorar o número de pacientes que se recuperam de covid é, no mínimo, duma insensibilidade atroz. Essa doença continua vitimando mais gente que qualquer outra. Destacar o percentual de recuperados é o mesmo que observar o prédio de Miami a desabar, mas ficar feliz porque todos os outros edifícios permanecem em pé.

Ainda estamos num momento que foge ao comum. Ainda vivemos um drama sem precedentes. Desviar o olhar desse assunto, em prol de uma visão “mais positiva” dos fatos, não muda a realidade.

***

Na semana passada perdemos uma pessoa bastante querida. O professor Álvaro Vicente entrou para as estatísticas do coronavírus. Músico talentoso, compartilhou o palco com praticamente todos os artistas do Vale do Paranhana. Mestre paciente, ensinou centenas de alunos a dedilharem um violão, manterem o ritmo de uma bateria ou atingirem agudos potentes com a própria voz. Abnegado, idealizou o Cordas Vivas – projeto que, além de levar entretenimento ao público, já teve a renda revertida a diversas causas beneficentes. Quando um ser humano tão benevolente e inspirador como o Álvaro parte, deixa uma dor difícil de traduzir em palavras. Em respeito à sua memória, e à memória dos demais que se foram, não podemos nos acostumar com a tragédia.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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