Do meu tuíter @Plinio_Zingano – A pior estrada para um ser humano percorrer é a Via das Dúvidas.
NATURAL
Vocês já repararam na imensa quantidade de temas envolvendo o “natural”, sendo veiculados nos jornais, nas televisões, nas revistas e nas rádios? A ideia de natural é um dos grandes motivos de discussão, principalmente, entre pessoas descoladas. Mesmo os colados têm na mente a crença de que tudo deva ser natural. É uma procura quase desesperada, induzindo os veículos de comunicação a aproveitarem a deixa.
Quem nunca comeu um sanduíche natural?, embora seja bem complicado definir um sanduíche de classe oposta, o antinatural. O adjetivo, mais do que o conceito, impregnou nossa vida numa espécie de remorso pelos avanços tecnológicos conseguidos pelas sociedades modernas. Qualquer atitude de bem-estar proporcionada por uma novidade logo provoca uma rajada de reações, mostrando como o nosso sistema de vida está afrontando o equilíbrio etológico e ecológico do ser.
E, no entanto, é tão insana essa luta! Que o digam todos aqueles que, por acreditarem, tomam parte dela. Um sanduíche realmente natural exigiria tarefas não naturais para poder ser oferecido ao distinto público. O pão não acontece na natureza. Ele precisa ser produzido, obviamente, num procedimento bem diferente do extrativismo. E nem estou mencionando os outros componentes da iguaria em questão. Se ela tiver ovo (vai ovo, não é?) não será cozido, frito ou em qualquer outra situação passível de se submeter o ovo além da crua. Eca! Pensem num sanduíche de grãos de trigo (o pão não foi assado, lembremse!) misturado com gema e clara, aquela gosma. Sim, sei, alguns corajosos comem ovos crus, porém são estranhos, não são? Estou sendo nojento? Talvez, mas estou sendo realista. Até agora não falei na parte das carnes, obviamente cruas, ainda quentes e sangrando ou já apodrecendo (devo insistir: não existem recursos naturais para confecção e conservação de embutidos; esses recursos são artificiais). Pois é, o resultado é uma gororoba — pelo menos para mim — intragável.
Esse conceito de natural implica água não tratada, micróbios, luz apenas solar (sei que é uma boa luz, mas à noite, pense bem, nossa visão não é das melhores), fogo não produzido voluntariamente, impedimento de uso de qualquer tipo de ferramenta. Aliás, no aspecto de ferramentas, como muitos animais, o homem utiliza, naturalmente, acessórios para facilitar-lhe a vida; seria injusto negar que nós também o fizéssemos só para classificar a naturalidade de nossos atos. O difícil está em determinar o limite entre o nato e o evoluído. A humanidade aproveitou plenamente a possibilidade de evoluir e chegou ao estágio atual, não importando o quanto filosofias, crenças e crendices vituperem tal fato.
Cá entre nós, esqueçamos essa utopia do natural. Lembremos que a vida em sociedade é regulada por leis e nenhuma delas tem essa qualidade. Todas são frutos da evolução. A única lei natural é a do mais forte e ela só viceja livremente na anarquia.


