
Nikita
Quando certa manhã Nikita abriu os olhos pensou que seria bom descobrir-se metamorfoseada em sua cama num monstruoso inseto. Isso acontecido, ficaria por incontáveis horas com o pensamento no vagar, sem nada ouvir ou responder, completamente alheia às lamurias e obrigações da raça humana. Apenas sendo inseto. Ainda não sabe se odeia o emprego porque ele é temporário, desses de final de ano, ou se é por causa do uniforme desconfortável que o gerente obriga usar durante o expediente diário que parece nunca ter fim. De fato, seria melhor estar na pele de Gregor Samsa do que na pele da atendente de caixa do supermercado.
Nikita virou-se na cama. Está nua. Tem certeza de que havia alguém com ela. Alguém dormira com ela. Decerto partiu na madrugada. Isso aconteceu outras vezes, ela nem liga. Lá fora o sol nascente é prelúdio de um dia calorento e arrastado. Nikita levanta-se devagar. Antes de ir ao banheiro abre a geladeira e toma água direto na garrafa. Ela fecha com força a geladeira, continua com a garrafa d’água na mão e senta-se no único sofá que existe no apartamento. Fica alguns minutos com a cabeça inclinada para trás, a garrafa pressionada contra a testa.
A Nikita deixou a água no chão, ao lado do sofá, e ficou de pé. Pensou outra vez em ir ao banheiro, só que foi abrir as venezianas, acredita que o ar da manhã ajudará na coordenação dos movimentos e das ideias. Inspirou com vontade a brisa matutina, debruçada na janela, e quem olhasse lá de baixo, da rua, poderia pensar numa bonita composição, numa menina de olhar singelo, numa moldura bucólica e bela, num convite para despistar as tristezas. “Oh Nikita you will never know, anything about my home…” Quando se viu cantarolando a canção teve asco. Lembrou-se do sonho ruim com a mãe morta.
Nikita não gosta de sonhar com a falecida. Não gosta do nome que a velha lhe deu. Retirado duma música dos anos oitenta onde Elton John vive um amor platônico por uma guarda de fronteira na Alemanha Oriental durante a Guerra Fria. Roteiro nada original pra escolher um nome de batismo, ela pensa. Ainda por cima, na Rússia, é masculino. Nem nome de menina é. Mas não tinha pai pra contestar. Deu nisso. No sonho a mãe aparecia cantando a canção. “Hey Nikita, is it cold?” O olhar mais triste que o normal. Os braços abertos chamando abraços que nunca antes vieram. Da mãe herdou esse apartamento, esse nome, os olhos de azul tímido. Nada disso tem importância.
A Nikita saiu da janela, deu alguns passos e parou defronte ao grande espelho grudado na parede. Observou o corpo nu. Magro demais. Branco demais. Quase alto. Aproximou-se do próprio reflexo, procurou alguma coisa no rosto, nos olhos, no cabelo. Ela deu dois passos para trás, virou a cabeça para o lado direito e encontrou o maldito uniforme do supermercado jogado sobre a cômoda. Voltou a olhar-se no espelho. As mãos deslizaram rente ao corpo. Fica muito melhor nua sem o uniforme. Virou-se, e olhando sobre o ombro, viu pequenas asas recém brotadas no meio das costas. Ela sorriu.
Nikita voltou a debruçar-se na janela. O sol tingia as sombras de um amarelo calmo e escorregadio. Ela estava de olhos fechados recebendo calor no rosto e esperando a metamorfose se completar. Nikita acha que sentirão sua falta no supermercado, quando a fila de gente impaciente aumentar por causa de um caixa a menos. Acha que a pessoa que dormiu com ela e saiu sem dar tiau também irá sentir sua falta. A Nikita percebeu uma leve dormência pelo corpo e entendeu que a transformação estava completa. Mesmo sob o efeito dessa dor manteve sorriso no rosto, imaginando que agora, metamorfoseada, deve iniciar um voo sobre a cidade. Talvez, no início, voe um pouco desajeitada, mas logo irá se aprumar e deslizar perfeita pelo céu sem nuvens daquela manhã de verão. Nikita está feliz, de repente, está.
Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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