
Ninguém é normal
Eu não sou normal. Você tampouco é.
A palavra latina “normalis”, que originou o vocábulo em português, significa “feito com esquadro, conforme a norma”. Por extensão, desde a origem, normal é tudo aquilo que obedece a um padrão.
Padrões são estabelecidos por pessoas. E pessoas têm lá suas limitações. Logo, o conceito de normalidade está longe de abranger toda a diversidade humana.
Pense, digamos, na numeração de uma calça. O tamanho 40 fica muito largo na sua cintura. O 38 se ajusta, mas aí as pernas são curtas demais. Seu corpo não serve para o modelo de roupa que as lojas consideram normal.
Talvez você me diga que a indústria produz para a população média. E eu respondo que a média nem sempre traduz a realidade.
Gosto de usar a seguinte ilustração: pegue um grupo de 20 indivíduos, sendo dez deles de 1,80m e outras dez de 1,60m. A média de altura é 1,70m – e ninguém está na média.
Ainda que as marcas de vestuário respondam à demanda de uma maioria, em termos estatísticos, elas deixam muita gente de fora. É por isso que magricelas como eu têm que fazer bainha ou apertar o cós da calça com frequência.
Então chegamos a uma segunda questão: pode ser que o normal esteja atrelado às necessidades da maioria. Bem, mas de que maioria estamos falando?
Peguemos o caso da escada. Na nossa sociedade bípede, é esperado que uma pessoa normal suba os degraus sem dificuldade, certo?
Cadeirantes são minoria. Assim como idosos com mobilidade reduzida. E cardiopatas. E gestantes. E obesos. E pessoas com nanismo. E jovens que quebraram o pé numa partida de futebol.
De repente, as exceções à regra são inúmeras, não é mesmo?
Os cidadãos que não conseguem subir escada até podem corresponder à minoria da população, contabilizando-se todas as pessoas do país. Porém, e se essa minoria for justamente o público-alvo de seu estabelecimento comercial? Nesse hipótese, degraus na entrada da loja afastam uma clientela importante.
Ocorre que, por muitos anos, as edificações tinham escadas junto à porta e nenhuma rampa. O padrão arquitetônico – a arquitetura normal – era definido por quem não percebia as demandas das ditas minorias.
Foi preciso mudar a legislação. Hoje a acessibilidade é obrigatória em prédios públicos e privados, conforme a Lei Nº 10.098. Ou seja: estabeleceu-se um novo parâmetro, um “novo normal”, dessa vez mais inclusivo.
Recorro a essa informação para mostrar como comportamentos aceitos numa época podem se tornar obsoletos, tempos depois. No Brasil escravocrata, era normal um senhor de engenho comprar e vender seres humanos como se fossem gado. Até 1962, era normal que mulher casada precisasse da autorização do marido para trabalhar, viajar ou abrir conta no banco.
Mulheres e pessoas pretas não são, necessariamente, a minoria numérica. Mesmo assim, foram minorizadas ao longo da História porque não ocupavam posições de poder. Dessa maneira, não ditavam as normas da sociedade.
Resumindo, a conversa de hoje não trata só de peças de roupa, projetos arquitetônicos ou mudanças no Código Civil. O que quero demonstrar é como padrões normativos são socialmente construídos. Geralmente, à imagem e semelhança de quem os constrói.
Portanto, se você acha anormal homem vestir saia, ou duas mulheres adotarem juntas uma criança, ou alguém empregar linguagem neutra na fala, sinto muito: seu senso de normalidade está preso a ideias antigas e bastante limitadas. Só porque algo é pouco comum ao seu redor, não significa que não exista ou não mereça respeito.
Eu não sou normal. Você tampouco é. E tudo bem.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
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