Paralelas
Esta postagem foi publicada em 6 de setembro de 2013 e está arquivada em Paralelas.

No banco dos réus

roseli santosUma hora e meia de caminhada por uma estrada cheia de lodo. Nos pés, chinelos embarrados pelas poças d´água que inundam o trajeto até a escola, após dias de chuva. Assim seguem a pequena estudante e seus colegas no único itinerário possível, percorrido diariamente por esses brasileirinhos, para chegar até a sala de aula.
Eles frequentam as séries iniciais do ensino fundamental de uma escola no interior da Bahia e são destaque em reportagem de uma emissora de TV que exibe, em rede nacional, o esforço dessa gente nos confins do mundo para obter o saber e o conhecimento que lhes é garantido por lei.
Não fosse o sorriso e as brincadeiras das crianças ao longo do caminho, o cenário seria ainda mais desolador. Alheios à dura realidade, eu diria que eles não se dão conta do quanto de sacrifício existe neste que seria, para a maioria das crianças do país, um simples ato de deslocamento entre a casa e a escola.
Mas isto é apenas o começo da jornada. Em sala de aula, as classes abrigam vários alunos amontoados. Nem sempre cabem todos na mesa mais larga e mais baixa que as convencionais, e nem sempre sobram banquinhos para as crianças sentarem. Nessa dança das cadeiras, a pequena estudante, com os pés e as pernas embarrados, bailou.
Aos prantos ela olha para o repórter e diz que ficou de pé, na rua, porque não sobrou um banquinho para ela assistir à aula. Alguns poucos minutos de atraso no percurso já tão acidentado e ela não tem chance de estudar sentada em um banquinho tão precário quanto às demais condições da escola.
Como se já não bastasse a quase uma hora e meia de caminhada, o castigo é ampliado pelo atraso involuntário e pela carência total de recursos do estabelecimento de ensino. Não muito longe dali, burocratas despacham de seus gabinetes, sentados, obviamente, em confortáveis cadeiras. Não muito longe dali, há outros bancos sendo preenchidos por estudantes que nunca precisarão passar por tamanha vergonha e, muito menos, se deslocar a pé, de chinelos, por estradas barrentas, o que deveria ser regra e direito para todos.
No banco dos réus ficam os que sobraram, os quase ninguéns, porque não contam, não interessam. Enquanto isso, a menina chora a exclusão que não lhe pertence por não ter chegado a tempo de sentar primeiro que o colega no banquinho da sala de aula.
Não fosse o desejo e a esperança que ainda alimento de vê-la (como tantos outros cidadãos esquecidos) vivendo num mundo mais digno, eu me sentaria à beira daquela estrada cheia de lodo para chorar as mazelas deste país. Acontece que não posso porque é preciso construir muito mais do que bancos para livrar os pequenos réus dessa tirania que tem nome e sobrenome e fica muito bem instalada não muito longe dali.

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]

Leave a Reply