Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 16 de março de 2018 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

No meio da rua tinha um buraco, por Rafael Tourinho Raymundo

No meio da rua tinha um buraco

No jargão jornalístico, uma reportagem do tipo “buraco de rua” é a cobertura de um fato local, sem repercussão na grande mídia. Parte-se da ideia de que a pavimentação de uma cidade é quase irrelevante, frente a temas de interesse nacional, como saúde pública, corrupção e políticas econômicas.

No entanto, de um simples rasgo no asfalto, podem-se escavar problemas mais profundos. Analisemos algumas situações hipotéticas (ou quase).

Cena 1. A rodovia no entorno do município recebe uma nova camada asfáltica. Basta um dia de chuva para que surjam as primeiras crateras. Fica fácil indagar motivos para o ocorrido: serviço grosseiro, material de procedência duvidosa ou, até mesmo, as duas coisas. Em breve, o trabalho terá de ser refeito. Um caso clássico de desperdício do dinheiro público.

Cena 2. Há um vazamento na rede pluvial e o acúmulo de água deteriora os bloquetes de uma calçada. Técnicos da prefeitura avaliam a situação e resolvem consertar o encanamento. A equipe escava o passeio urbano e realiza a obra, deixando para trás um amontoado de terra e entulho. Como não se previram recursos para reparar a calçada, o buraco permanece ali. Um vergonhoso lembrete da falta de planejamento das autoridades.

Cena 3. Uma idosa tropeça num desnível do pavimento. Ela cai e quebra a perna. Porém, não pode ser atendida pelo SUS. Os funcionários do hospital estão em greve por falta de pagamento. Os repasses do governo estadual não chegaram.

Cena 4. Chove novamente. Um espaço vazio entre dois paralelepípedos empoça a água e vira criadouro do mosquito Aedes aegypti. Dali a dois meses, a região registra um surto de dengue.

Cena 5. O clima continua instável. Os buracos de rua aumentam. Não há orçamento, nem mão de obra qualificada, muito menos equipamentos para remendar o estrago. Os carros levantam poeira, que invade escritórios, lojas e escolas do bairro. Aumentam os casos de doenças respiratórias. Contudo, lembremo-nos, o hospital está em greve.

Enquanto jornalista, aprendi que não existe assunto irrelevante, quando há uma comunidade interessada. A maneira como lidamos com os pequenos transtornos do dia a dia reflete nossa postura em relação às grandes mazelas. Ações locais podem gerar impactos globais.

Talvez as manchetes da grande mídia não fossem tão escandalosas, se cidadãos e políticos se preocupassem mais com seus “buracos de rua”. A mudança geral começa pela nossa vizinhança.

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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