Muitas vezes me condeno pela dificuldade de expressar emoções adequadamente. Há um consenso de que a descendência alemã é parcimoniosa em verbalizar afetos, especialmente em demonstrá-los fisicamente. Isto permite que eu me sinta um pouco mais normal, porém não exatamente confortável.
Olhando para trás, tentando entender como se formou este meu traço, lembro que não me faltaram cuidados, mas talvez um pouco mais de carinhos gratuitos – aqueles que a gente recebe sem estar de aniversário, sem ter feito uma boa ação, mas pelo simples fato de existirmos.
Com este meu jeito engessado de ser, faltei a um abraço que se esboçou quando eu era adolescente e estava saindo em excursão escolar ao Rio de Janeiro. Meu irmão, oito anos mais velho, e ainda menos afeito a gestos de carinho do que eu, sentiu-se tocado pelo momento e, na hora da despedida, ameaçou dedicar-me um abraço. Mas o gesto ficou no ar. Como não era nosso costume, e afoita que estava para embarcar, percebi a intenção, mas eu não soube voltar alguns passos e buscar aquele abraço alinhavado. Eu disse apenas tchau e embarquei com uma sensação de vazio, que me acompanhou na viagem e que me retorna à lembrança não raras vezes. Mesmo assim, eu nunca tomei uma providência a este respeito. Até hoje não contei ao meu irmão como me senti, nem dei a ele a chance de me dizer o quanto eu o frustrei, ou não. Será que ele guarda aquele momento na memória?
Mesmo hoje, ainda acho que economizo em gestos de afeto, que verdadeiramente sinto, mas não verbalizo e pouco demonstro fisicamente.
Minha filha, quando passou a cumprimentar sua avó materna sempre com um beijo, foi quem me encorajou, pelo exemplo, a ter com minha mãe o mesmo hábito, pois não o fazia antes. Seria porque o gesto não me foi ensinado, praticado regularmente quando criança? É possível, já não lembro bem.
Mas recordo que minha mãe, quando se tornou avó, de meus sobrinhos e de minha filha, passou a praticar beijos e abraços com muito mais freqüência e espontaneidade. Atribuo, em parte, ao fato de que, já aposentada, ela tivesse para os netos mais tempo de exercitar o carinho. Mas e eu, que continuo com a vida atribulada, e no entanto sou mais doce com meus netos do que fui com minha filha. Natural! – poderá dizer a maior parte das pessoas, referendando a tese de que avós são “mães com açúcar”. Mesmo assim, penso que deveria ter beijado e abraçado mais minha filha, todos os meus familiares, meus amigos. Se isto fosse um hábito, aquele abraço ao meu irmão não teria ficado suspenso no ar e pairando em minha mente por tantos anos.
Esta postagem foi publicada em 27 de setembro de 2013 e está arquivada em Paralelas.


