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O barulho da morte

O barulho da morte Eu trabalhava na sala da assessoria de imprensa do Sindicato dos Sapateiros, em Parobé, no meio

O barulho da morte

Eu trabalhava na sala da assessoria de imprensa do Sindicato dos Sapateiros, em Parobé, no meio da tarde da última segunda-feira, quando ouvi o barulho da morte. Por causa do calor fora de época, deixei a janela aberta, e a proximidade com a ERS-115 permitiu que eu escutasse muito bem a freada inesperada de um veículo e o som da pancada seca no corpo de alguém que tivera o azar de atravessar a pista.
A necessidade de terminar o quanto antes a minha tarefa me impediu de ter a reação normal de um repórter atento. Ao invés de sair correndo para ver o que havia acontecido, permaneci sentado em frente ao computador, apenas escutando os sons posteriores. Primeiro foi a sirene do veículo dos bombeiros, que, por também estarem sediados perto do local, atenderam a ocorrência em pouco tempo. Cerca de dez minutos depois foi a vez de chegar o Samu. Como pouco após a ambulância saiu com sirene ligada, pensei que a vítima tivera a sorte de sobreviver ao choque. Voltei a prestar atenção no meu trabalho e somente horas depois, ao chegar em casa e acessar a internet, foi que me dei conta da tragédia que ocorrera a poucos metros de mim.
Pior, aos poucos comecei a me dar conta que esta era a primeira vez que eu testemunhara uma morte trágica. Nos meus mais de vinte anos de jornalismo fiz cobertura de inúmeros casos fatais, seja no trânsito ou de homicídios. Minha frieza germânica sempre me impediu de demonstrar qualquer tipo de emoção, por mais chocante que fosse a cena que eu presenciara. Mas, nunca estive no local de um crime ou acidente no exato momento em que ele acontecia. Testemunhei alguns pequenos acidentes, com lesões leves, e certamente vi pela TV alguma cena trágica. Mas, esta foi a primeira vez que testemunhei, mesmo que apenas através do som, o momento em que um ser humano tinha sua vida ceifada.
Ao tomar conhecimento dos detalhes graves do fato, é claro que fiquei chocado, principalmente pela morte de uma inocente criança. Mas, antes de levantar qualquer consideração culposa sobre as ações da mãe da vítima, e do motorista, penso que existem culpados que provavelmente nem tomaram conhecimento desta tragédia.  Para não me estender, vou tentar resumir em algumas perguntas: por que aquela mãe precisava atravessar a pista naquele exato trecho? Por que não existem passarelas em vários pontos da rodovia? Por que não há uma cerca no valo central impedindo a passagem em lugar perigoso? Por que aquela mulher não usou transporte público para se deslocar de um bairro a outro da cidade?
Estas perguntas devem ser encaminhadas às autoridades governamentais. São elas que decidem sobre realização de obras públicas, como é uma rodovia, e pela organização de serviços de transporte. Esta tragédia ocorreu porque uma mãe que precisava ir de um ponto a outro da cidade resolveu atravessar uma rodovia totalmente sem segurança. Infelizmente, estas mesmas autoridades não estavam lá para ouvir, como eu, o som que a morte produz.

João Alberto Müller
Jornalista

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