
O homem da sala de espera
Vamos até o quintal da casa. Tem pequeno gramado, mesinhas pra jogar damas, cadeiras e bancos, um cinamomo quase sem folhas e a pequena fonte d’água desativada. Ela me pede pra sentar e descansar. Ela chama o lugar de pracinha, todavia, é pracinha sem flores. Sem pombos. Sem alegria de crianças nos balanços e escorregadores. Nada de pessoas namorando nem vendedores de doces. É pracinha sem vida. Me sento. Os outros fizeram o mesmo.
Ela conta que será melhor morar nessa casa. Ela deve estar certa. Pra que um velho solto atrapalhando a fila, ocupando espaços, atrasando o movimento das ruas? Ela sorri e fala que meu rosto está ótimo. Que perdi a palidez de antes. Se ela diz, deve ser. Quem sou eu, um velho, pra contrariar? Conversa sobre alimentação, comenta que aprovou os pratos, bons e balanceados, vou ficar com o corpo enxuto, ela brinca, e eu a vejo ainda menina rindo das minhas piadas.
Depois ela me beija na testa e sai, precisa falar com o monitor, algo sobre medicação. Eu fico aqui. Os outros também. O sol ameno acaricia a pele, os poucos cabelos, os ossos. Ninguém diz nada, as pessoas nem mesmo se olham. Não convém falar dos dias idos. Isso é o tanto pior. É modo de atrair dor. Quantos meses tem ainda? Há quanto tempo foi? Quem era mesmo?
Ela não voltou pra dar tchau, ou eu cochilei e não percebi? Às vezes ainda a vejo tão miudinha no carregado dos braços, o boa noite com voz sonolenta, pijaminha de algodão com cheiro bom, a historinha de bruxas, de princesa, de fadas, dentinho faltando, o desenho mais lindo do mundo feito na escolinha. Agora quem está ao meu lado é a gorda com jaleco branco. Me segura pelo braço, me faz levantar e ir pra sala de TV. Os outros fizeram o mesmo.
O som da TV, dependurada num canto, se mistura com vozes. Ou ecos. Ou saudades. Corpos gastos sobre velhos sofás, ou seria o contrário? Mãos seguram queixos. Imagens coloridas na tela. Paredes brancas. Pessoas cabisbaixas. Um desalento toma conta. Só que desalento não pode. Aqui tenho com quem conversar, passar o tempo acompanhado. Tenho quem toma conta. Cuida. Aqui é perfeito, sim, ela disse. E ela sempre pensou o melhor pra mim, desde muito pequena. Sim! Eu que reclamo de tudo. Mania de velho ranzinza, ela decerto ia dizer.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
[Leia todas as colunas]


