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O preconceito oculto

Entretenimento não precisa ter acessibilidade? Ao longo do texto você entenderá o que eu estou dizendo. Nesta semana a casa mais vigiada do Brasil ligou suas câmeras e iniciou uma nova temporada. Discussão batida, porém sempre presente, fãs do reality show x pessoas que não gostam, debatem diariamente e dão argumentações defendendo os seus pontos de vista. De um lado, se diz que falta cultura ao programa, que o prêmio poderia ser doado para uma instituição de caridade, do outro se ressalta que o objetivo da disputa é entretenimento, tal qual uma novela e que sem sua realização, não daria os muitos milhões que gera em publicidade e empregos para quem trabalha no entorno.

Tenho tendência a concordar com o argumento de quem defende. Posso achar o programa ruim e não querer assistir se for o caso, porém, não posso negar o seu sucesso e o baita engajamento que ele possui nacionalmente. Inclusive acho um barato acompanhar.

Entretanto, quero trazer o BBB para um outro olhar, o de quem está do lado de cá, possui uma necessidade específica, assiste o programa e não consegue se ver lá dentro. Pelos mais variados motivos, acessos, provas, ausência ao longo de 20 anos, de qualquer pessoa que possua uma limitação física. Não estamos falando do No Limite.

Existem provas de resistência no Big Brother, não por ser um programa dessa finalidade, sim em função da produção o preparar assim. Nem digo que esse seja o argumento de nunca ter se visto um cadeirante por exemplo lá. Ou uma pessoa cega ou então surda. Ainda que muitas das provas de resistência poderiam ser executadas por esses indivíduos também. Mas, é um motivo que poderia ser dado.

Na grande realidade é que tudo não passa do preconceito oculto. É mais fácil em prol da audiência, usar o programa como um debatedor de pautas presentes, racismo, homofobia, todas pertinentes, porém, midiáticas. Necessidade física não dá Ibope, é difícil, dá preguiça remanejar espaços e fazer provas inclusivas para todos, que testem capacidades na mesma intensidade.

É melhor colocar quem tem perturbação psicológica, quem é pegador, quem faz barraco, já que essa combinação de características vai fazer “fogo no parquinho”. Quem tem necessidade física específica pode só ficar no sofá assistindo. Na vida real já tende a ser assim. Os espaços em show, são cercadinhos para essas pessoas ficarem isoladas das “normais”, com o pretexto de que podem assistir de “camarote” tudo.

Nos realitys é da mesma forma, o máximo permitido é a pipoca e o controle da tv. Vale assistir, participar não. Parece algo sem tanta importância, de fato não tem.  Só é o reflexo da vida, a tv reflete o que as pessoas pensam, o que a população que ver. Seja no entretenimento, no jornalismo, se dá mais ênfase ao que dá mais retorno. Em função disso, programas culturais não tem horário nobre.

E a população que não possui necessidade específica, em sua maioria não clama por ver e conhecer realidades dessa natureza. E nem é por não gostar, é simplesmente por não dar importância.

Aí entra o egoísmo, a falta de empatia que muito já comentamos e que ainda tenho o sonho de que um dia seja diferente.

Por Cassiano Gottlieb, de Taquara
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