Penso, logo insisto
Esta postagem foi publicada em 30 de agosto de 2013 e está arquivada em Penso, logo insisto.

O processo

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – A humanidade é formada por milhares de minorias. Se você exaltar uma, apenas uma, estará sendo preconceituoso com as demais.

O PROCESSO

O escritor Franz Kafka escreveu um livro apavorante chamado “O Processo”. Resumidamente, o romance aborda a desventura de Josef K., processado por algum delito. “Algum delito” é a melhor forma de classificar a tragédia que se abate sobre o personagem, pois nunca é revelado qual foi o crime cometido.
Dito assim, o tema do texto parece bobo e despropositado. Entretanto, refletindo sobre a narração, concluímos: é aterrador! As situações surgem num crescendo inexplicável até culminar com a execução da vítima. Mais do que absurdo, “O Processo” descreve a indignação por um dos grandes males da vida em sociedade: a burocracia. Sem acusação, houve julgamento e condenação.
Parece apenas literatura? Pois não é! Na semana passada a burocracia me atingiu. Felizmente foi uma leve burocracia comercial, porém causadora de um dia inteiramente perdido na tarefa de desatar seus nós.
Dia 22 de agosto, de manhã, tentei dar mais som ao programa informativo num canal pago de televisão. Acionei o controle remoto, mas a imagem foi trocada por um aviso: “veja se não há cabos soltos ou o cartão do decodificador não está mal inserido”. Começara o meu processo.
Tentei todas as manobras conhecidas para fazer reviver o aparelho. Em vão. A mensagem continuava. Passei à fase 2. Telefonei ao técnico instalador que me deu as instruções para resolver a questão. Não funcionou. Entramos na fase 3. O técnico pediu 30 minutos para contatar com a companhia contratada para enviar o sinal. Esperei 60 minutos, sabe como é! A resposta foi um choque. Sinal cortado por falta de pagamento. Como? Minha fatura indicava esse pagamento. Melhor ligar para o telefone exibido na tela. Fase 4.
Cinco ligações até concluir que, mesmo o plano tendo sido contratado no meu nome, como titular de um pacote incluindo telefone fixo, três telefones celulares, internete e assinatura da tevê, lá na organizada empresa tinha sido faturado no nome da dona do telefone fixo, minha esposa. Claro, isso só depois de ter tentado convencer uma irônica telefonista de a fatura estar paga e ouvir dela, num sorriso maroto (parece até grupo de pagode) que ainda devíamos R$ 42,00. Foi inútil explicar que o CPF da proprietária do telefone não condizia com o nome porque há uns cinco anos, sem aviso, a linha, adquirida em 1996, passou a ser faturada no nome de solteira dela (casamos em 1978) e não houve cristo para colocar um pouco de luz na cabeça daqueles incompetentes, desfazendo a alteração errônea.
Fase 5! A telefonista, com muita “boa vontade” ditou-me os 30 algarismos do código de barras para pagamento. Se esperar a cópia da fatura, levará dez dias, “senhorrrr”. Repeti os algarismos e corri ao banco. A caixa digitou o código e nada. Havia erro.
Fase 6! Outro telefonema e mais explicações. Novamente, o código digitável. A cretina da atendente havia ditado três algarismos em ordem invertida, mesmo com conferência.
Fase 7! Volto ao banco. Mesma caixa. Tudo certo! Espere: o banco faz cobranças para a companhia, mas não neste caso. Salvou-me o representante da empresa em Taquara. Paguei usando seu terminal. Agora, era só esperar mais 24 horas.
E ainda há gente dizendo que o Kafka era muito depressivo.

professor plinio

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]

Leave a Reply