
O Rafa e o Repente
O que é um repente? O que é um repentista? Repente é arte? Repentista é artista? Que ligação tem o repente e o repentista com o Cordel? Arte popular é Arte?
Tão antigas são as raízes dos repentistas, que variam de número conforme as épocas, mas não se extinguem. Repente, repentista, existem aqui no Brasil?
Rafael Hofmeister de Aguiar,no seu ‘Repertório da cantoria: os gêneros do repente nordestino brasileiro’, pesquisou e organizou,em verbetes,o tema acima, e o fez com paixão, vasto conhecimento de causa e rica fundamentação teórica.

Sua pesquisa sintetiza, pela primeira vez, os gêneros de repente da cantoria nordestina com rigor científico e metodológico, com exemplos de cantorias disponíveis no YouTube e catalogando 116 gêneros do repente. Tal dicionário sairá em breve em plataforma digital pela Cátedra José Saramago da Universidade de Vigo.
Não devemos pensar que a História só se faz por momentos importantes gerados por figuras famosas de grande poder. Tudo o que fazemos, tu, eu, todos enfim, seja de pequeno ou grande, de bem ou mal, tudo são fragmentos que se unem para escrevê-la, e por isso, o que der, da forma que der, deve ser registrado.
Um dos grandes instrumentos para isso, para manter viva a memória humana, a nossa passagem e a nossa variada multicultura pela existência, sem dúvida é a Arte. Seja de forma oral ou escrita, seja ficcionando a realidade, seja buscando mostrá-la de modo o mais verossímel possível, a Arte é um ser de muitas forma são qual ninguém fica indiferente.
Todos nascemos com uma faísca de apreciação artística na alma. Tal centelha surge com a nossa essência, revela-se através de nossa sensibilidade. Não há criatura humana, por mais rude, mais dura ou cruel que seja,que em algum momento não se emocione, não seja elevada por alguma das formas pelas quais a Arte se manifesta em seus muitos corpos, e, muito forte, muito ampla em causar essa emoção é a Música. Essa, por várias razões, alcança maior popularidade, tem maior apelo entre as pessoas.Há quem não aprecie cinema, leitura,teatro, enfim, mas de música não há quem não goste.
No entanto,alguns vão além de apenas apreciá-la, querem criá-la, querem compor, querem tecer assuntos em letras, melodias, instrumentos, voz, e depois apresentar suas criações aos outros. São os artistas, os músicos.
Quando há uma preocupação com a melodia, a versificação, a vocalização, com o conteúdo e o como adequar esse aos elementos anteriores, quando o método criativo é ainda mais ativado pela disputa de ser melhor que o outro, de fazer algo que o ouro ainda não fez, não é isso que fazem os repentistas? Não é isso também parte do processo da produção artística? Sim. Então acho que repente é uma forma de arte, e, quem com ele lida, artista. Mas isso não é minha área e se quiseres melhores informações terás que falar com o Rafa, ou conhecer seus textos em artigos e outras formas de publicação.
Posfácio: conheci o Rafa em meus primeiros anos de mestre, numa quinta-série de escola pública. Ele então com 11 anos. Naqueles tempos já mostrava seus traços de genialidade, tinha uma hiperatividade linguística enorme, e o que falava era diferente do papo dos garotos de sua idade. Ele já percebia a vida com olhos muito além, lia coisas que nem adultos leem, e sabia falar sobre o que havia lido. Por causa disso, sofreu. Queria sempre saber mais, discutir mais, mas ao mesmo tempo se libertar das barulhentas e melancólicas salas de aula e companhias de colegas que tinham pouco a acrescentar a suas buscas. Isso e outras coisas o levaram a uma rebeldia quase insana, alimentada por filósofos, poetas e escritores “malditos”. Um dos frutos de tal época foi a sua banda punk-hardcore “Peste Bubônica”.

Confesso que várias achei que ele não sobreviveria àadolescência. Mas dentro dele já havia uma bússola que o guiava pelo rumo certo, seu arraigado amor pela literatura o manteve no leme. Trabalhou em escolas públicas, sendo, por muitos,mal-compreendido, e até perseguido ideologicamente, mas pelas quais também deixou uma legião de fãs que de alguma forma eram tocados por aquele jovenzinho magrinho e rebelde, aparentemente tímido, mas tão incessantemente falador quanto os repentistas que tanto adora, e tão fascinantemente apaixonado pelo que lecionava.
A paixão do Rafa pelo repente, sobre o Patativa -um dos principais, senão o principal nome do repente – surgiu numa disciplina de Letras, História da Língua Portuguesa com a professora Eliana Pritsch, quando conheceu a obra dele e se apaixonou por ela.

Um momento bem difícil, em que eu pensei que o Rafa iria cair, foi alguns anos atrás,quando subitamente faleceu seu irmão mais novo, Gabriel, 29, bem quando o Rafa terminava a tese de doutorado. A paixão pelo irmão, eterno parceiro, o arrastou a uma profunda tristeza que fazia o Rafa me ligar várias vezes chorando inconformado, mas eu falei para ele que o maior orgulho do irmão que partiu seria vê-lo se tornar o mestre a que estava predestinado, e arrasar no doutorado. E foi o que o Rafa fez.
O guri, de agora 38 nos, licenciou-se, sempre com louvor, em Letras pela Unisinos, Mestre em Processos e Manifestações Culturais pela Universidade Feevale, Doutor em Letras – Estudos de Literatura pela UFRGS,e agora é pós-doutorando em Filologia Galega pela Universidade de Vigo. Hoje, na Espanha, nas regiões da Galícia, encanta os espanhóis com seu carisma e sabedoria. Ah, também achou, aqui no Brasil, sua cara metade, espero. Torço muito pelos dois. (aqui pôster feito pelo Marat Vágner para conferência do Rafael, e foto da mesma).

Rafael deu aulas sobre Literatura Brasileira,no ano passado, na Universidade de Vigo, assim como foi o único brasileiro na organização e participação da IV Jornadas Internacionais José Saramago, na qual também foi mediador de comunicações no campus Pontevedra, na mesma universidade.


Aqui eu e meu ex-pupilo, ele já no caminho de ser o Ben Kenobi literário. Nosso último reencontro foi quando doei meu acervo de obras teóricas sobre literatura e clássicos da literatura mundial, brasileira e sul-riograndese para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul- campus Rolante, onde o Rafa trabalha. Na outra foto, ele na Espanha com a namorada Roberta.

A Arte é também uma da formas mais ideias e belas de unir as pessoas. Parabéns Rafael por esta tua bela divulgação de uma porção do nosso Brasil, porção que está sendo tão bem acolhida ai nas Europas.
Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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