Num silêncio que era dela, largou as roupas, uma de cada vez, na máquina de lavar, girou botão e acocorou-se em frente. No cômodo frio e úmido, a pouca claridade do fim de tarde fazia o zumbido da lavadora ressoar triste. Parecia combinar perfeitamente com a falta de ideia sobre sua vida dali em diante. Não consegue entender por que o “chape, chape” da máquina surrando com água as camisas, calças, blusas e vestidos consegue lhe acalmar. Dentro de mim, ela murmura, e leva mão à barriga, tentando adivinhar se alguma coisa se movia ali. Dentro de mim, repete o murmúrio.
Ainda de cócoras deixou o olhar percorrer todo o aposento. Encostou o queixo no peito e fitou o chão de lajotas cor de barro. Então se lembrou da bisavó Lorena falando do remédio que fazia pras mulheres que trabalhavam na casa de Dona Candoca, lá no rincão onde moravam. “Era só ferver um chá de ervas bem forte, beber em jejum que tudo vinha perna abaixo”, a falecida bisavó dizia, num causo cheio de lamento. “Naquele tempo, era muita judiação e sofrimento, que Deus havia de me perdoar”. Recordou-se da velha ensinando a mistura das ervas e fazendo-a, ainda menina, escrever o nome de cada pé de mato. A fórmula do remédio rabiscada num papel rasgado do pacote de farinha de trigo Rosa Branca. Ela lembrou-se do detalhe.
Sentiu um calafrio percorrer o corpo. Talvez tenha fresta deixando brisa entrar, o lençol dependurado levemente balançava. Também pode ser por causa das palavras que voltaram a ecoar dentro da cabeça. Voltaram a machucar. “Não mandei se engraçar pro meu lado, agora dê um jeito. Eu não vou assumir nada. Pode terminar teu trabalho de hoje e não precisa mais vir”.
A máquina aquietou-se. A roupa suja está limpa. Está pronta pra receber novas sujeiras. Ela levanta-se. Abraça o próprio corpo e sai em passos arrastados. Ainda não sabe se vai preparar o remédio da bisavó Lorena. Ou buscar mais roupas pra pôr na máquina.


