Paralelas
Esta postagem foi publicada em 16 de agosto de 2013 e está arquivada em Paralelas.

O tiro pela culatra

IngeIara e Otávio já começaram o relacionamento medindo forças. Cada qual queria se mostrar mais seguro de si, descolado e acima das fraquezas humanas que desencadeiam cenas ridículas entre homens e mulheres quando entra em jogo a traição e o ciúme – quer seja fato ou suspeita.
Como ambos se julgavam seres superiores, quando foram viver juntos combinaram que quem deles resolvesse terminar a relação deveria pagar ao outro um requintado jantar de despedida, tudo no mais alto e civilizado nível, com franqueza e sem baixarias.
Decorreu algum tempo até que Iara percebesse sinais de que Otávio estava tendo um caso paralelo. Como não arriscava de sofrer à toa, com meras hipóteses, e considerando que os homens são dados a negar até a morte a mais inequívoca traição, Iara se fez de tonta e deu a Otávio toda corda que ele precisava para se enrolar todo e cair em irrefutável flagrante.
Pois Iara conseguiu confirmar suas suspeitas. Mas não levou o fato ao conhecimento do cachorrão, nem lhe permitiu o prazer de vê-la desmanchando-se em lágrimas. Simplesmente encomendou requintado jantar no melhor restaurante da cidade – mesa discreta para dois, velas, e um prato que ambos apreciavam entre seus prediletos.
Quando Otávio quis saber do que se tratava a comemoração, Iara respondeu que estava apenas cumprindo uma promessa feita. Homem sem-vergonha é tonto, mas não é burro. Lá pelo meio da refeição a ficha já havia caído e a comida tornou-se indigesta para Otávio, que, nervoso, não se saiu lá muito bem na noite de sexo que Iara tramara como despedida, sem nada revelar a ele. Com o estômago embrulhado pelas fortes suspeitas e incertezas, Otávio chegou a passar mal, fazendo várias incursões ao banheiro naquela madrugada. Sem jeito, atribuiu a culpa ao camarão.
Na manhã seguinte, foi com o mesmo sangue frio que Iara apontou para Otávio o revólver que ele, incautamente, deixava acessível no guarda-roupas, pois não existia preocupação com segurança de crianças, que não havia na casa.
Ele já tomara banho e, preparando-se para sair estrategicamente cedo para o trabalho, Otávio amarrava os sapatos, quando, levantando o olhar, encontrou Iara mirando o revólver bem em sua direção. Depois que o sangue sumiu todo da figura de Otávio, congelado pelo pavor, Iara disparou, sem dó e certeira: – Galinha como você é, Otávio, não deveria deixar uma arma à disposição de uma mulher traída e descontrolada pelo ódio.
Otávio não mais se mexeu, até que Iara, entre amargas gargalhadas, depositou o revólver sobre a mesa, e saiu arrastando a mala com seus pertences.
Meses depois, voltaram a viver juntos, depois que Otávio gastou seu eloqüente verbo e Iara reconheceu, intimamente, que não nascera para conquistas fáceis, e que Otávio era sim o desafio que ela desejava encarar.
Tiveram outras brigas, sem dúvida, mas nunca mais Iara viu nem sinal do tal revólver pela casa, mesmo que, na tragicomédia encenada com a arma, ela tivesse zelado cuidadosamente para que nenhuma bala estivesse no tambor.

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