
Com texto do dramaturgo espanhol Rodolf Sirera, ‘O Veneno do Teatro‘ passou por Taquara na última sexta-feira (25), em apresentação única realizada no Centro de Eventos da Faccat, por meio do Sesc-RS. A peça, protagonizada por Osmar Prado e Maurício Machado, apresenta um tenso embate cênico entre um aristocrata obcecado pela verdade na arte e um ator profissional, convidado a realizar um experimento dramático de consequências imprevisíveis.
Antes da apresentação, os atores conversaram com a Rádio Taquara, quando comentaram sobre o processo criativo, os desafios do texto e a recepção do público. A montagem brasileira é dirigida por Eduardo Figueiredo e produzida pela Companhia da Mentira.
Osmar Prado dá vida ao Marquês, um aristocrata manipulador que convida um ator, interpretado por Maurício Machado, para representar uma cena de morte. Aos poucos, a fronteira entre ficção e realidade se dissolve, revelando uma trama densa e psicológica que gira em torno de controle, crueldade e liberdade.
“É um texto que tem uma arquitetura dramática perfeita, muito bem escrito. E o Marquês, meu personagem, é um verdadeiro psicopata, um homem que usa a arte como instrumento de tortura”, relatou Osmar, que voltou aos palcos após cerca de dez anos afastado do teatro. “Depois do Velho do Rio, da novela Pantanal, recusei outros convites para a TV. Eu estava esperando algo que me envenenasse de verdade. E esse texto fez isso”, completou.
Maurício Machado resume ‘O Veneno do Teatro‘ como um mergulho na tensão entre realidade e ficção, onde a encenação se mistura à verdade humana. Segundo ele, a peça revela as máscaras sociais e a crueldade por trás das aparências, explorando até onde a manipulação de uma mente ardilosa pode ir.
“É um duelo entre dois homens. Um acredita ter o poder, e o exerce, mas percebe que esse poder é limitado, especialmente diante de outros verdadeiros poderes. É como nós, artistas. Temos alguma influência, claro, mas os verdadeiros poderes não estão conosco. E o espetáculo joga com isso o tempo todo: com a teatralidade, com os limites do papel e da realidade, com o julgamento que fazemos do outro e de nós mesmos”, relata.
Com apenas dois atores em cena e sem grandes recursos visuais, ‘O Veneno do Teatro‘ aposta na força do texto e na atuação para provocar o público. “É uma experiência que exige do espectador. Mas quem se entrega, sai transformado”, avaliou Maurício.

Durante a entrevista, Osmar também revisitou sua longa trajetória artística, iniciada ainda na infância. Lembrou sua estreia no teatro em 1959 e episódios marcantes da carreira, como o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Gramado por ‘10 Segundos para Vencer‘. “Ganhei prêmios no teatro, no cinema e na TV. E agora volto ao palco com esse presente. Isso aqui, sim, é veneno puro”.
Osmar também destacou o desafio de voltar aos palcos com esse texto. “Eu estou com 76 anos, 65 de carreira, e não fazia teatro há mais de dez anos. E fui presenteado com esse texto. Um texto com uma qualidade dramatúrgica inquestionável”.
Ele ressaltou o trabalho corporal envolvido: “Fiz muito teatro físico. O texto é a espinha dorsal, mas tem que ter carne e nervo em volta. E esse nervo e essa carne é o corpo do ator”.
A construção do personagem no palco e os paralelos entre passado e presente
Osmar Prado revelou um processo singular de construção de personagem, ao mencionar que buscou “algumas das suas próprias psicopatias” para dar vida ao Marquês, personagem central de ‘O Veneno do Teatro‘. Para ele, a construção desse tipo de figura tirânica está diretamente ligada à sua experiência anterior no teatro, quando interpretou Adolf Hitler no espetáculo ‘Uma Rosa para Hitler‘, em 1994.
Osmar relembra a polêmica que enfrentou ao declarar, em entrevista a Jô Soares, que interpretaria Hitler sob uma ótica humana, algo considerado por muitos “inadmissível”. “Se a personagem existiu, é claro que é possível interpretá-la sob uma perspectiva humana”, defende.
Ele cita o exemplo de Charles Chaplin em ‘O Grande Ditador‘, filme de 1940 que fez uma paródia que expunha as contradições do poder ditatorial. “O barbeiro, que não quer guerra, e o Hitler, que é um subproduto de uma tendência apoiada por muita gente na época”, explica.

No filme, Chaplin interpreta dois personagens principais: o barbeiro judeu, uma pessoa comum e pacífica que não deseja conflito, e o ditador Adenoid Hynkel, uma paródia de Adolf Hitler, que simboliza a figura autoritária, agressiva e tirânica.
O ator também fez uma análise sobre os regimes totalitários, relacionando o contexto histórico do texto, escrito durante a ditadura franquista na Espanha, com o momento atual. Para ele, apesar das dificuldades impostas pelo xadrez geopolítico e conflitos atuais na Europa e Oriente Médio, “estamos talvez vivendo um dos melhores momentos da história”, destacando a formação dos BRICs como uma força que busca se “desvincular da dominação do Império Norte-Americano”.
“O mundo gira e o império está em decadência”, afirmou, ressaltando o surgimento da multilateralidade, um modelo em que “não pode haver apenas um ou dois países determinando os rumos do planeta, nem impondo o dólar como moeda universal”. Para ele, “o mundo precisa sentar em uma mesa redonda e discutir o que é justo para todos”.


