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Publicado em 02/10/2021 21:35 Off

ÓBITO TAMBÉM É ALTA

Essa semana presenciamos todos e todas que, direta ou indiretamente, acompanhamos a CPI da Covid, a um dos depoimentos mais estarrecedores que já se viu nesta Comissão Parlamentar de Inquérito. O depoimento da advogada Bruna Morata, representante dos médicos que elaboraram um dossiê de denúncias contra a operadora de saúde PreventSenior, por sua atuação durante o tratamento de pacientes acometidos pela Covid.

A propagação sem limites das ideias de uso de medicamentos e tratamentos que não têm nenhuma comprovação científica de eficácia contra o vírus da Covid-19 não é novidade para ninguém. Que muitos médicos e médicas, negando a ciência que deveria guiar suas profissões, se utilizaram do famoso “Kit Covid” no tratamento da doença, também não surpreende. Entretanto, o depoimento da advogada dos médicos dissidentes da PreventSenior é, de longe, e para dizer o mínimo, assustador.

Durante a Segunda Guerra Mundial, nos campos de concentração nazista, muitos médicos fizeram “ciência” deste modo: desumano, cruel e bárbaro. E hoje, mais de oitenta anos depois, uma empresa privada que presta (des)serviços de saúde repete uma prática que acreditávamos já superada: o uso de cobaias humanas, sem consentimento, em tratamentos que levaram muitos dos pacientes à morte.

Obviamente se vivêssemos em um país que fosse, no mínimo, sério, esse depoimento teria derrubado o governo que hoje ocupa os altos cargos desta nação, posto que ficou comprovado o envolvimento deste na política de morte desenvolvida pela PreventSenior. Pesquisas realizadas sem nenhuma fundamentação, seres humanos tendo o fluxo de oxigênio de seus respiradores diminuído até chegarem ao óbito (nem me prenderei aqui ao fato de que utilizaram também tratamentos como o uso de ozônio via anal – também sem comprovação de eficácia – nesses pacientes e que alguns cederam suas próprias mães para tal fim; falsificações de atestados de óbito e afins).

A economia em primeiro lugar: enganemos o povo com a falsa ideia de que se medicados com esse Kit poderão seguir suas vidas normalmente sem se preocupar com a doença, mesmo que soubessem nitidamente que tal tratamento não funcionava e não tinha nenhuma comprovação científica de sua eficácia.

Ah, mas eu tomei o kit e só tive sintomas leves! Eu também e não tomei nenhum dos medicamentos que continha no kit!

O problema é que agora chegamos a um nível de barbárie que há muito não se via no mundo. Um nível de desumanidade e de crueldade que em poucos momentos da história contemporânea presenciamos: agora vidas são números e números valem mais que vidas. A cifra vale mais que um pai, a economia vale mais que uma mãe. O retrocesso que já assustava e amedrontava os conscientes e sensatos, agora se torna desespero. Porque não há, no meu ver, nada mais desesperador do que perceber que quem deveria salvar vidas, as tira por fins econômicos.

“Óbito também é alta” é provavelmente a frase que mais define o retrocesso que estamos vivendo nesse país desde o ano de 2016. Um marco histórico certamente, e um golpe para quem ainda encara com lucidez a atual conjuntura nacional.

Que os culpados sejam punidos e que a ciência vença a ignorância. Que “óbito também é alta” não seja jamais esquecido e que cada livro de história contenha ao menos um capítulo dedicado a denunciar essa chacina. Em memória das 596.800 vidas perdidas nesse genocídio.

Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
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