“Todos os dias, mais de 400 alunos precisam atravessar o rio para chegarem à escola. Eles andam quilômetros com o uniforme e material dados pelo colégio. Quando chegam na beira do rio, tiram a roupa e amarram dentro da capulana (retângulo de tecido). Fazem a travessia a pé, mantendo os braços esticados para o alto. Assim, não molham o pacote de tecido. Ao chegarem na outra extremidade, eles abrem o pano, se secam, se vestem e seguem para aprender”. Foi assim que Elenise Oliveira, taquarense de 47 anos, definiu o ofício de ir à aula desempenhado por estudantes da Escola Adventista de Munguluni, cidade localizada no sudeste do continente africano, onde realizou projeto de voluntariado.
O ingresso de Elenise na atividade como voluntária social aconteceu através de um convite da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), de Moçambique, em março deste ano. Elenise é formada em pedagogia, psicopedagogia, neuropsicologia e está concluindo mestrado em terapia de família. Sua missão foi colaborar para a capacitação de 25 professores do vilarejo de Munguluni, situado a 1.000 km de Maputo, capital de Moçambique.
A missionária desembarcou no dia 13 de junho em Joanesburgo e seguiu de ônibus numa viagem que durou cerca de 60 horas até chegar ao vilarejo. Foi recebida com muita alegria e músicas. Durante três semanas, realizou atividades especiais voltadas às crianças, na primeira semana com musicalização, histórias e atenção especial para inclusão. À noite, eram realizados treinamentos para os educadores. Na terceira semana, o trabalho desenvolvido foi terapia para os casais e famílias da localidade, através de dinâmicas e práticas.
“A vivência é transformadora! Foram quatro dias de viagem para chegar, eles vivem no meio do nada. Exceto a escola e a igreja, as casas são absolutamente de barro e palha, com buracos que são as aberturas de janela e porta. Não tem mobília, apenas lugar para pendurar a rede. Fazem fogo no chão. A terra é fecunda, mas não chove, o que nasce todo ano é mandioca. Eles pilam e fazem polenta. Essa é, exatamente, a comida de uma comunidade de cinco mil pessoas na volta das montanhas”, conta Elenise. Os moradores do vilarejo falam português e o dialeto Manhauá, e na escola acontecem aulas de francês e inglês. “As crianças têm facilidade de aprendizagem e criatividade. Não fiz um estudo, mas reparei que, em contrapartida à alimentação precária, os pequenos não consomem açúcar, inimigo número um do conhecimento e inteligência”, explica.


