Paralelas
Esta postagem foi publicada em 10 de maio de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Objeto do amor de minha avó

O brinco na orelha de minha avó se impunha na figura dela, como se o enfeite estivesse ali por toda sua existência. Ele atraiu minha atenção de criança antes mesmo que eu pudesse criar alguma intimidade com a própria figura de minha avó. Ela se foi deste mundo depois de sete décadas, e continuava uma estranha em certos aspectos; o enfeite não. Conhecia de cor sua forma arredondada, o movimento sutil, o brilho tímido.
Quando eu tinha seis anos, era tão íntima daquele brinco, que o pedi como herança. Aos 12, me envergonhei do pedido; aos 15 tive meu desejo atendido, bem antes do que desejaria, entregue pelas mãos solenes de minha mãe.
Meu avô jamais entendeu por que aqueles brincos nunca cederam lugar a outros, mais valiosos, que ele mesmo presenteara, a custa de muitos sacos de feijão, tardes poeirentas de bater as vagens, calos doloridos. Suspeito que aquilo feria-lhe o orgulho. Teria, meu avô, deixado o quarto de casal quando desistiu de desvendar o apego de minha avó por aquela joia? Lembro que algumas vezes ele tentou saber se fora presente de alguém da família, mas as respostas eram sempre evasivas.
Minha avó adotou aquela peça como adorno único. Os tais brincos sobreviveram até mesmo à aliança que ela abandonou, a pretexto do dedo que aumentara, assim como lhe crescia o ventre com o passar dos anos, protegido pelo vestido gasto, que ela já não desejava renovar.
Aquela joia se apoderou do meu imaginário muitas vezes. A mais notória foi quando vovó colocou para correr meu namorado cabeludo. Ela sentou-se entre nós, sobre a laje improvisada de banco, “bundando” a abertura do espaço entre eu e ele. Evitou encarar-me, olhou direto nos olhos do rapaz, seus rostos a menos de dez centímetros um do outro, ela com expressão de louca incontida, ele atônito de pavor. Do ângulo lateral em que me encontrava, paralisada de vergonha, aquele objeto-símbolo de minha avó lançou-me seu brilho, ofuscando meu raciocínio e capacidade de reação.
Por que aquele brinco exercia tal poder? Só caí em mim quando meu amor adolescente já se distanciava, na última vez em que nos vimos.
Soube, tempos depois, que o talento assombroso de minha avó já servira para livrá-la de um pretendente indesejado. A jovem – Alma era seu nome – espantou o rapaz, à saída da casa paterna, surgindo, à noite, envolta em branco, da vizinha roça de aipim.
Já naquele tempo, minha avó carregava na orelha o brilho de um apego que atravessou a vida com ela, segundo pude apurar em antigas fotos de família.
Quem lhe dera aquele brinco, nunca cheguei a esclarecer, e a dúvida repousa hoje protegida numa gaveta à chave, onde o visito de tempos em tempos, imaginando que segredo ele encerra e desejando reviver o fascínio que por longo tempo exerceu sobre mim.

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