Rafael Tourinho Raymundo

Obrigado pela atenção

Eu não sei como você chegou até aqui. Talvez tenha encontrado a chamada para a coluna no Facebook, ou então alguém compartilhou o link via WhatsApp. Mas uma certeza eu tenho: este texto não será o único conteúdo que você vai consumir hoje noseu dispositivo eletrônico.

Aliás, a concorrência chega a ser desleal. Disputo a sua atenção com opções muito mais atrativas. O TikTok está cheio de vídeos engraçados, com gente fazendo piada e dancinhas malucas. O Instagram é ótimo para bisbilhotar a vida alheia – do amigo de infância ou da celebridade que nunca vai nos responder uma mensagem. Para quem usa celular com sistema Android, é só arrastar a tela à direita e o próprio Google vai oferecer manchetes curiosas, baseadas em assuntos supostamente de interesse do leitor.

Os pontos de distração são tantos que mal consigo terminar dois parágrafos sem ser interrompido por um banner de publicidade. Portanto, se você chegou até aqui e continua lendo estas palavras, agradeço sobremaneira. Porém, e depois, para onde vai sua atenção?

Muitos de nós não se deixam mais entregar ao tédio. Qualquer momento ocioso é motivo para pegar o smartphone. Então, logo somos tragados pelo redemoinho que é o feed infinito das plataformas sociais. Notícias, boatos, análises sobre a guerra, memes jocosos… Tudo vira um emaranhado indefinido de informações. Nunca tivemos acesso tão rápido e tão vasto ao conteúdo. Ainda assim, ao fim do dia, às vezes fica a sensação de que não aprendemos nada.

O psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus levantou, ainda no século XIX, a hipótese da Curva do Esquecimento – mais tarde corroborada por outros cientistas. Segundo essa ideia, as lembranças que retemos de um fato novo costumam cair pela metade em poucos dias. Isso acontece porque, se não as usarmos com frequência, o cérebro as considera pouco relevantes. Ou seja: a gente se esquece do que viu para abrir caminho a um conhecimento que seja mais útil no futuro.

Acontece que, na torrente inesgotável de novidades chamada internet, esse dito conhecimento útil nunca chega. A quantidade de informações é muito maior que nossa capacidade de assimilá-las. Mesmo que você encontre um assunto denso e interessante, com o qual gaste alguns minutos para pensar, basta um toque na tela e o cenário muda. Sai o textão sobre política, entra a foto de um cachorro de óculos escuros. (E como não amar um dog tão estiloso, né?)

Cientes dessa saturação, alguns influenciadores embarcaram na tendência dos pontos de descanso digital. Trata-se de publicarvídeos de praias, cachoeiras e outras paisagens de natureza, não raro embaladas por uma trilha sonora relaxante. Assim, o usuário está lá, rolando os posts a esmo, até que se depara com uma montanha ou uma árvore.O objetivo é propor 15 segundos para a pessoa parar, respirar fundo e limpar a cabeça – nem que seja para lotá-la de bobagens logo depois.

É uma tentativa válida, claro. Outra opção seria reavaliar os próprios hábitos on-line. Será que você precisa seguir tanta gente nas redes sociais? Será que não passa tempo demais nesses ambientes? A informação que você consome é de qualidade? Ao fim do dia, você sente que melhorou como ser humano, ou que pelo menos relaxou um pouco?

Enfim, ficam os questionamentos. Da minha parte, prometo só aparecer de novo na sua tela mês que vem. Agora, caso você queira continuar a reflexão, aqui vão links para textos passados que dialogam com o tema de hoje. Obrigado desde já pela atenção:

Absurdos digitais, consequências reais

De boas intenções, a internet está cheia

Dieta das palavras

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
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