Como um pai continua vivendo, como continua levantando todos os dias e indo para o emprego de sempre, para a rotina de sempre, quando está nutrindo em si a dor da perda de um filho amado?
Para tal pai que agoniza, as coisas do mundo continuarão a ser contempladas da mesma forma? Permanecerão belos, a ele, os dias ensolarados? E como lhe serão os tempos em que parecem pesadas e irremovíveis as nuvens pelos céus? Como sobreviver a esse lento e intenso consumo?
“Ah, filho! Onde andarás? Com quem?” As mesmas perguntas, mas sem saber mais para onde dirigi-las. “Ah, teu olhar, que expressava sentimentos vários, agora duas pedras que miram mortas uma só coisa, a escuridão? O nada? Cadê a luz que me servia de bússola? Apagou-se o brilhar da estrela que me levava adiante. Tão perdido estou agora! Será que a morte, aquela que te buscou, é a mesma que me mata aqui sem precisar levar-me? A mesma pela qual trocastes os meus cálidos abraços?”
E tu, ó logrado pai? O que abraças agora, com tua face contorcida, com teus olhos já quase iguais aos dele? Uma estátua fria, corpo de sal, exposta nas galerias de um mundo que não queremos conosco. Ele te ouvirá? Ele se erguerá aos teus lamentos? Estará vendo teu semblante transtornado? Às vezes parece que sim, parece que vive. O cabelo que acariciavas ainda tão macio.
Ó pai, teu filho foi tirado te ti tão inesperadamente, tão cedo, e te obrigas a dizer “meu Deus, fosse eu antes para que não precisasse sentir tal perda, padecer em tanta tristeza, eu – que já vivi o suficiente aqui sobre a Terra. Por que levá-lo tão moço, ainda a ter muitas realizações, a ver muitos dias alegres em seu futuro?”.
E antes pensava o mesmo pai “Deus me conserve bem para que eu possa ver teus muitos passos, estar contigo pelos muitos dias de tua caminhada, te apoiando, mesmo que de longe” e pedia “Quero um pouco mais de tempo para poder seguir com meu filho. Não me prives de uma das coisas que mais me traz felicidade, a companhia dele”.
Raiva, indignação, loucura me possuem ao pensar nisso, e me levam a bradar ante os Céus, ante o Destino “Por que ocorrem coisas assim?” Como ter forças para continuar? Não sucumbir a tal mal é possível?
Sim, pela fé, por crer que, em espírito, ou alma, seu filho continua com ele, a seu lado, nessa tão aparente sem sentido jornada que é a nossa existência, árdua, impiedosa, inegociável, na qual tudo somos, e somos nada.
Esta postagem foi publicada em 5 de julho de 2013 e está arquivada em Haiml & etc..


