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Esta postagem foi publicada em 6 de janeiro de 2012 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Olhando nos olhos

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – É justo quem não segue a lei reclamar da falta de justiça?
Pois pode crer: são tão injustos que reclamam, mesmo sendo transgressores.

 

OLHANDO NOS OLHOS

Dos meus tempos de caserna (foram seis anos), ficou uma frase que, com algumas mudanças, uso em várias situações. O exército é, de maneira geral, dividido em “armas”. São, basicamente, as armas de Infantaria, Cavalaria, Artilharia e Engenharia, de acordo com a utilização dos soldados numa ação de guerra. Hoje, esses nomes são apenas uma tradição, remontando a um tempo em que o cavalo era o veículo mais rápido. Os nomes continuam, embora os seus significados já não sejam aqueles sugeridos pelas palavras.
Eu, por exemplo, fui da Infantaria, aquela turma que ia a pé para o combate, quando havia luta corpo a corpo. É desse tempo a frase mencionada acima: “A Infantaria olha o inimigo nos olhos”. Isso nos envaidecia muito, mesmo sem ter, realmente, entrado em combate. É um daqueles eslôgãs corporativistas, usados para manter o moral elevado. No exército clássico, o infante chegava muito perto dos inimigos, a ponto de ver-lhes os olhos. Analisando sob um viés mais crítico, atualmente eu diria que éramos massa de manobra, quem sentia a dureza de um combate. Todos os planos e estratégias traçados nos quartéis-generais pelos estafes de comando – todos militares –, jamais levaram em conta a realidade da briga na zona do agrião, como, aliás, continuam não levando. Ali, sim, acontece a verdadeira luta. As soluções são encontradas na hora, surgindo os heróis e, infelizmente, as baixas. Estas últimas, para os generais, são apenas números. Mais um, mais cem, não importa!

Parece-lhes que comecei o ano com o coração sanguinário? Talvez, mas, como disse, a frase da Infantaria me vem à memória seguidamente. Agora, com as devidas adaptações, uso-a para me referir ao ensino. A educação oficial do nosso estado projetou novas diretrizes para serem aplicadas em sala de aula. Já falei da quimera desses planos criados por quem, apesar de professor (os generais, decidindo), não está mais olhando os alunos nos olhos no campo de batalha. Não adianta, a falta de uso muda o hábito! Quem não vive a sala de aula, esqueceu como age o distinto público. Qualquer alteração será apenas cosmética, se não vier embasada em uma forte mudança da filosofia dos objetivos do ensino. Enquanto ele estiver estribado em oníricos conceitos politicamente corretos, acho que a coisa não vai.
Finalmente, na última semana de 2011, um decreto do governo do estado decidiu botar mais minas no terreno. Os soldados (sim, os professores) serão responsabilizados pela evasão dos alunos (trabalho típico para psicólogos); os soldados deverão ter intensa participação dentro da comunidade (trabalho típico para assistentes sociais); os soldados não serão estimulados a sobressair do grupo (individualidade é pecado).
Enquanto isso, as escolinhas de futebol, as escolas de samba e os cursos de modelo prosperam.

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