Colunas Paralelas
Esta postagem foi publicada em 14 de fevereiro de 2014 e está arquivada em Colunas, Paralelas.

Opinião formada

IngeTenho poucas “opiniões formadas” que imagino que não possam ser deformadas. Mas uma delas é que as pessoas devem ser homenageadas em vida pelo que fazem de bom.
Panorama fez este reconhecimento, em abril de 2012, a uma de suas mais fiéis leitoras e colaboradora, a poetisa e historiadora Maria Eunice Kautzmann, falecida na semana passada. E o fizemos inspirados por seu próprio exemplo: Maria Eunice homenageou muita gente (vivos e mortos) com textos publicados no Panorama.
Nesta semana recebemos um de seus poemas (em homenagem à sua amada Taquara), reproduzido abaixo e enviado por Véra Lúcia  Maciel Barroso, idealizadora do Projeto Raízes, historiadora e professora da FAPA (Faculdade Porto-Alegrense) e também taquarense, mas moradora de Santo Antônio da Patrulha. No Raízes, Maria Eunice foi uma das pessoas retratadas por sua obra, e Véra a homenageou com um amplo relato que nós reproduziremos integralmente no site do Panorama, destacando aqui apenas o poema referido, agora também como nossa homenagem póstuma:

Taquara ilumina-se à verdade das águas correntes
e vem o Paranhana achegar-se ao Sinos
trazendo a voz do tempo
a imagem criadora da terra
o grito do homem
e sobre todas as coisas
o berço onde se ergue o dia
conclamando não à morte
e sim à bem-vinda vida.

A força do amor é esta fala
que brota e se levanta (baluarte da liberdade)
a oratória heróica do tempo
pelos campos e matarias
o rosto do casario
a mão do trabalhador
os cabelos soltos ao vento:
– se me destruíres o espírito, sucumbirei.

Taquara ilumina-se à prova:
é preciso servir-vos dos olhos
como se amanhã nada mais vísseis
a não ser o pó e sobrevivos
lamentando eternamente.

Taquara ilumina-se ao seio cantante
dos pássaros e ao explodir das flores
refletindo-se no azul dos céus
ao passar dos animais ao repartir dos pães
à sabedoria dos homens.

Bem sei que esta terra generosa
doa-se em feitos e magia
e domina os terrores
e eleva os anseios
soltando o verbo
e protegendo o verde.

Bem sei que esta terra calorosa
multiplica-se em esperanças
e dá lições
e escreve o livro
n’ânsia de exaltar a pródiga natureza
e amá-la e feri-la.
Taquara ilumina-se à inteligência do homem e seu
destino.

Maria Eunice Kautzmann
* 7/9/1924         + 5/2/2014

 

MARIA EUNICE MULLER KAUTZMANN:

UMA EXTRAORDINÁRIA CIDADÃ TAQUARENSE

 

            Quando do Raízes de Taquara, em 2008, prestei um carinhosa homenagem à Maria Eunice, afilhada da minha saudosa avó Leontina Maciel, mãe das professoras Alice e Jeny Maciel e da minha mãe Lucia. Assim dirigi-me a ela e a todos os presentes:

 

Trata-se uma taquarense singular e plural! Seu entusiasmo é contagiante! Sua sabedoria é imensurável! Sua generosidade é extraordinária! Sua grandeza de alma é ímpar! Sua alegria expressa vida plena!

A professora Maria Eunice é “doutora” em pesquisa! Seu acervo documental é extraordinário! Ainda não vi arquivo particular de tamanho fôlego!

É extremamente organizado! Dele emana a luz sobre o tempo da história de Taquara e sua gente! Evocar Maria Eunice é destacar sua terra-mãe, Taquara do Mundo Novo, com o que de melhor ela tem a ofertar!

Maria Eunice traz aos taquarenses um mundo novo: com o seu fazer, com o seu dizer, com o seu pesquisar, com o seu desvendar, enfim, com o seu sentimento de partilha. É impossível passar pela história de Taquara, sem associá-la à trajetória de vida da Maria Eunice!

Vamos conhecê-la, mais de perto?

Maria Eunice Müller, filha de Pedro José Müller e Olinda Maria Hampe Müller, nasceu a 7 de setembro de 1924, em Taquara. Casada com Aristeu Kautzmann, eles tiveram cinco filhos: Artur, Aristeu, Rubens, Ricardo e Rafael – cinco netos.

Formou-se professora no Colégio São José, de São Leopoldo, cursando, posteriormente, a Faculdade de Letras. É escritora, poeta, cronista, genealogista e historiadora. Publicou “Espirais, cavaquinho, criança, universo de amor e água”. Quando residiu em Montenegro lançou a obra “Montenegro de ontem e de hoje”,  em três volumes. Publicou estudos de genealogia com os títulos: 1º volume: Raízes: Müller-Huyer-Hampe-Fischer; 2º volume: Raízes: Kautzmann, Kley, Petry, Sander. E em pequena tiragem lançou: Raízes – Pedro Bernardo Müller; Raízes – Antônio Muller e Raízes – Joaquim Pereira de Moura e Lourdes Müller Atti.

Organizou o livro “História de Taquara”, com mais de 1000 páginas, editado pela Prefeitura Municipal de Taquara. Pertence a dezenas de entidades culturais e literárias no Brasil. Recebeu inúmeras homenagens, prêmios, medalhas, diplomas, láureas e títulos.

Dedicou muitos anos de sua vida à comunidade de Montenegro, onde residiu com o esposo e os filhos. Lá agitou culturalmente, movimentando a tudo e a todos! Inegavelmente pode se dizer que a história de Montenegro é indissociável da vida da Maria Eunice, por tudo que ela fez pela cidade, onde deixou amigos e colegas inesquecíveis! Lá os montenegrinos usufruiram da sua energia! Felizmente recebeu o reconhecimento merecido por seu dedicado trabalho àquela comunidade.

Entretanto, ainda que os laços estivessem estreitos à terra de adoção por bons anos, o vínculo com a sua Taquara era mais forte! Voltou para ficar! E desde que retornou muitos temas, assuntos, aspectos, recortes da trajetória de Taquara têm sido por ela trabalhados, com obstinação e perseverança. Seu tempo está marcado pelos inúmeros frutos que têm produzido ao pesquisar e estudar a história e a cultura de sua terra natal. Uma prova desta indissociabilidade à terra-mãe se expressa em um dos seus poemas dedicados à Taquara:

Taquara ilumina-se à verdade das águas correntes

e vem o Paranhana achegar-se ao Sinos

trazendo a voz do tempo

a imagem criadora da terra

o grito do homem

e sobre todas as coisas

o berço onde se ergue o dia

conclamando não à morte

e sim à bem-vinda vida.

 

A força do amor é esta fala

que brota e se levanta (baluarte da liberdade)

a oratória heróica do tempo

pelos campos e matarias

o rosto do casario

a mão do trabalhador

os cabelos soltos ao vento:

– se me destruíres o espírito, sucumbirei.

 

Taquara ilumina-se à prova:

é preciso servir-vos dos olhos

como se amanhã nada mais vísseis

a não ser o pó e sobrevivos

lamentando eternamente.

 

Taquara ilumina-se ao seio cantante

dos pássaros e ao explodir das flores

refletindo-se no azul dos céus

ao passar dos animais ao repartir dos pães

à sabedoria dos homens.

 

Bem sei que esta terra generosa

doa-se em feitos e magia

e domina os terrores

e eleva os anseios

soltando o verbo

e protegendo o verde.

 

Bem sei que esta terra calorosa

multiplica-se em esperanças

e dá lições

e escreve o livro

n’ânsia de exaltar a pródiga natureza

e amá-la e feri-la.

Taquara ilumina-se à inteligência do homem e seu destino.

                                  

Por sua atuação, ação e movimento, a palavra é de reconhecimento e gratidão a quem Taquara muito lhe deve.

            Infelizmente, Maria Eunice partiu na semana que passou – dia 5 de fevereiro, aos 89 anos de vida, intensamente vividos.

            Deixou-nos como legado, um acervo fantástico, fruto de pesquisa em fontes documentais que incansavelmente buscou, catou e compulsou, além das muitas lições que deu a todos que a cercaram: à sua família e familiares – que muito os amou; a seus amigos, aos quais foi muito generosa, e aos que como ela se devotaram às letras, à educação e à sua terra.

            Quando a Casa Vidal estiver restaurada, lindamente iluminada, ao lado do Palácio Municipal, seu acervo estará, enfim, disponível para a pesquisa, um sonho que acalentou até partir. Com o reconhecimento do poder público de Taquara, a promessa vai ser fielmente cumprida, pois seus filhos todos têm a dimensão do valor da mãe, do seu trabalho e dedicação incansáveis para com todos e para com seu torrão natal!

             Um ser humano dessa dimensão não morre: permanece por suas obras e lições legadas.

            Descanse em paz, querida Maria Eunice!

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
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