
Do “Meu cinicário” – Ídolos são estelionatários de sua simpatia, mas, apesar da sofisticação, acabam sendo apanhados. Mesmo assim, muitos continuam idolatrados.
OPINIÃO
Uma frase enigmática do intelectual chileno Alejandro Jodorowsky, hoje com 91 anos, define a complexidade da comunicação entre as pessoas. Reproduzo-a, sem, destrinchá-la (por falta de espaço – tente você): “entre o que eu penso, o que quero dizer, o que digo e o que você ouve, o que você quer ouvir e o que você acha que entendeu, há um abismo”. Um abismo criador de mal-entendidos e, talvez, a grande pedra no meio do caminho (salve, Drummond!) de uma convivência pacífica entre as mesmas pessoas!
Por que cito essa turma? Está aparecendo nos veículos de comunicação, uma campanha do Tribunal Superior Eleitoral, alertando eleitores a respeito das famosas fake news, neste momento, próximos da eleição para prefeitos e vereadores. A intenção, louvável, segundo penso, é evitar a disseminação de boatos sobre candidatos, seus comportamentos passados e, num exercício astrológico, suas ações futuras. Falando a palavra “boato”, somos conduzidos a pensar em assuntos obscuros. Falsa notícia – tradução literal do inglês em questão – levada a sério, pode criar problemas às vezes trágicos. Para quem não lembra, sugiro procurar o caso da Escola Base, acontecido em São Paulo, em março de 1994.
A campanha do TSE, estrelada por um famoso youtuber, faz um tutorial, sugerindo como evitar passar adiante informações cujas veracidades não possam ser comprovadas. Com a internete, ficou fácil retransmitir qualquer notícia, num ato chamado compartilhamento. Basta apertar uma tecla e todo mundo logo toma conhecimento de quanta coisa “eles” estão escondendo da gente. Nossa consciência fica satisfeita por ajudarmos a manter a turma por dentro do assuntos das “quebradas”. Mas, aí, mora o perigo! E se for informação inverídica? O conselho básico do apresentador é: checar a origem daquilo a compartilhar. E sugere algumas fontes de pesquisa. Uma, são veículos de comunicação tradicionais por terem uma espécie de fé de ofício, garantindo a veracidade da informação. Lamentavelmente, no caso da Escola Base, se verá que nem essas instituições estão livres das fake.
Porém, e por isso citei Jodorowsky, até num tutorial para identificar essas notícias, as coisas não são claras. O youtuber recomenda: “encontrando uma opinião honesta, pode passar adiante”. Mas não esclarece o significado de “opinião honesta”.
Finalmente, o próprio apresentador já divulgou fake news, ao prever, para agosto, o Brasil com um milhão de mortos vítimas da pandemia. E, pelas explicações dadas depois, sua opinião era honesta.
Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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