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Publicado em 08/10/2021 17:39 Off

Os comandos da tecnologia

Meu televisor se tornou incompatível com os serviços de streaming que assino. Não que o aparelho esteja com defeito. Ele ainda liga e desliga, os circuitos funcionam normalmente e há perfeito acesso à rede Wi-Fi. Ou seja, não se trata de um problema de hardware. O que ocorre é que o software, o programa que permite acesso ao conteúdo on-line, sofreu qualquer atualização e, agora, a empresa desenvolvedora considera minha smart TV velha demais para me oferecer suporte técnico.

O televisor tem cerca de sete anos de uso. Está praticamente intacto, mas já ficou ultrapassado segundo os padrões da indústria. Alguém poderia reclamar que se trata de obsolescência programada, aquele prazo de validade artificial que força os consumidores a comprarem novos dispositivos para fazer a roda da economia girar. Nem vou tão longe na crítica. Quero, isto sim, refletir sobre como nos tornamos reféns das plataformas digitais.

Vivemos numa sociedade softwarizada, para usar um termo do pesquisador Lev Manovich. Os programas de computador são nossa interface com o mundo. É a partir deles que conversamos com os amigos, realizamos tarefas de trabalho, lemos notícias, jogamos ou assistimos a uma série. Dada a configuração atual de nossas relações profissionais e pessoais, pode-se dizer, portanto, que somos dependentes dessas tecnologias – não uma dependência no sentido do vício, mas de ser muito difícil, quase impossível, exercer nossos papéis sociais plenamente sem nenhum desses recursos.

E cabe ressaltar que, na maioria das vezes, a relação entre humanos e ambientes digitais nos parece tranquila. Veja bem, há muita desinformação circulando pela rede, como já mencionei nesta coluna. Porém, quando os usuários não estão destilando ódio em comentários do Facebook nem espalhando teorias conspiratórias de que a Terra é plana, as plataformas cumprem sua função. Elas são meras ferramentas que nós utilizamos para executar uma atividade. Ou não.

Diversos acadêmicos questionam até que ponto nós usamos a tecnologia ou somos usados por ela. Para resumir uma discussão bem complexa, trago um exemplo do filósofo Vilém Flusser. O autor explica que um aparelho produtor de imagens técnicas – e os dispositivos eletrônicos se enquadram aí – já vem programado. Todas as possibilidades de interação foram pré-concebidas. É como numa partida de xadrez: existem milhões de movimentações possíveis das peças sobre o tabuleiro. Ainda assim, se o enxadrista seguir as regras, ele nunca inventará um lance novo. Mesmo que vivencie uma situação “inédita” e queime neurônios para tomar uma decisão, sua estratégia será apenas uma potencialidade que estava oculta na “programação” do jogo o tempo todo.

De volta às plataformas digitais, temos a ilusão de tomar decisões e manusearas máquinas a nosso serviço. Contudo, no fim das contas, estamos cumprindo comandos preexistentes: abrir anexo, salvar arquivo, fechar programa.

Se esta conversa parece abstrata demais, pense em quantas vezes você precisou reiniciar o celular porque o aplicativo travou. Ou teve de interromper o trabalho no computador porque o sistema decidiu que aquela era a hora de instalar atualizações. Ou aguardou cinco segundos para pular o anúncio antes de um vídeo no YouTube, pois não tinha alternativa. Ou foi impedido de verificar o saldo da conta bancária, pois o terminal não reconheceu a biometria. Ou enfrentou dificuldade de acesso ao serviço de streaming, já que, afinal, a smart TV se tornara incompatível da noite para o dia.

Talvez um dos exemplos mais proeminentes de nossa dependência tecnológica seja o da última segunda-feira, dia do apagão simultâneo de Instagram, Facebook e WhatsApp. De repente, lojistas perderam seu canal de venda on-line, equipes de trabalho permaneceram incomunicáveis e muita gente mal sabia o que fazer nas horas vagas. A pane foi corrigida em poucas horas. Resta saber se foi tempo suficiente para entendermos quem está no comando.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
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