Roseli Santos
Esta postagem foi publicada em 3 de setembro de 2018 e está arquivada em Roseli Santos.

Os especiais, por Roseli Santos

Os especiais

Eles sempre existiram. Reproduzem-se, de tempos em tempos, de forma desordenada e caótica, sem qualquer lógica. Alguns conseguem ser referência por meio de méritos, trabalho, competência, sociabilidade, talento ou a conjunção desses e de vários outros fatores, mas nunca sem muita transpiração e, talvez, um pouco (muito pouco), de inspiração e sorte.

Por falha do Criador, o ser humano tende a invejar o “sucesso” do seu semelhante e, de quebra, “pegar carona” naquilo que lhe convém, sem o menor esforço, de preferência, para se destacar da manada. Observe melhor os políticos ou até o seu vizinho ou seu colega de trabalho mais próximos. Se bobear, você mesmo comete os mesmos desatinos, se achando o tal.

Ao longo de 32 anos de jornalismo, posso afirmar que já cruzei com vários “tipos” dessa espécie, alguns brilhantes por natureza naquilo que fazem a vida inteira, como o sapateiro Raymundo Dalmina, recentemente falecido, em Taquara. Um ser humano especial que, do alto da sua humildade e profissionalismo, brilhou e continua vivo, reluzindo nas lembranças dos que o conheceram.

Restam poucos como ele. O mundo precisaria de mais “Dalminas”  espalhados pelo mundo, talvez, para nos resgatar esse tantinho básico de humanidade. São raros, mas existem.

Em tempos instagramáveis, em que uma imagem diz apenas aquilo que queremos forjar, há poucos e raros registros autênticos, como a vida de algumas pessoas. Reparem com atenção e verão nas entrelinhas uma grande leva de gente que se considera, realmente, mais especial que as outras.

Observem com calma o olhar, a postura, a linguagem, as atitudes, as palavras e os gestos, além dos vídeos e fotos nas redes sociais. Não é preciso mais do que dez minutos para apontar os sete erros e identificar o que é verdadeiro e o que é falso.

Não se nasce especial, assim, desses que se auto intitulam os melhores em tudo. Quando digo tudo, é tudo mesmo. Já há estudos analisando essa geração “sabe-tudo”, comprovadamente ignorante em muitas coisas, como todo ser humano, mas sem humildade e nem paciência para sociabilizar. É só na caminhada e na experiência que isso se fortalece.

 Creio que já somos especiais por natureza, todos, sem exceção, pelo simples fato de termos nascido do jeito que somos. O que desvirtua o ser humano dessa trajetória chama-se ego e vaidade, além da ganância, obviamente. Na essência, todos podem construir suas próprias histórias de “glória”, sem precisar ser tão especiais assim.

Basta fluir com a existência e saber que cada tijolo dessa obra um dia fará parte de uma parede sólida, que pode ser um simples muro de quintal ou um imponente prédio em Dubai, mas que tem seu tempo para ser construído. Prepare seu terreno primeiro, erga suas próprias paredes e depois desfrute da casa que poderás habitar para sempre, até que alguém possa reerguer outra construção sobre o solo que você adubou.

Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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