Do “Meu livro de citações” — Não importa o que o homem faça: o número absoluto de analfabetos, ao nascer – e de vivos, ao morrer – é sempre 100%.
OS LIVRO
Eu fui encarregado pelo destino de ser um dos distribuidores do livro que sacudiu o Brasil nessas duas últimas semanas! Para mim, uma dolorosa ironia. Conto.
Como diretor de uma escola de educação de jovens e adultos (o NEJAP, de Parobé), recebi do Ministério da Educação uma carga de 400 conjuntos de quatro livros cada um para distribuir aos meus alunos. Devolvi. Não pelo problema dos “livro”, mas pela falta de alunos, pois a escola não é frequencial. Utilizamos o sistema de ensino a distância com tutoria por demanda, significando que, afora nos exames, apenas atendemos alunos na eliminação de possíveis dúvidas quando solicitados. Essa circunstância me eximiu de compactuar com a frase, agora famosa, “os livro ilustrado estão emprestado”. Mas, como o assunto está na minha esfera de ação, não me furtarei à opinião sobre ele.
A tônica do texto onde a frase está colocada, não tem nada de escandalosa. Ele faz uma análise genérica das situações de emprego da língua. É aula sobre as variantes linguísticas e a comunicação humana. Não satisfeitos com a frase-bomba lá de cima, insistindo na correção, os autores exemplificam mais: “nós pega o peixe” e “os menino pega o peixe”. Sabiamente, título do capítulo de onde eles foram extraídos é “Escrever é diferente de falar”.
O rolo se deu, porque ficou explícito que os autores abdicaram de sua condição de professores. De profissionais formados para ensinar, viraram meros agentes detectores de uma realidade, a qual os cursos ministrados deveriam transformar. Se não for para aprender algo, qual a razão para frequentar um curso? Claro, escrever é diferente de falar. Qualquer um fala como quiser, não é crime; mas quem vai à escola deve aprender o código da língua e, se não o fizer, estará, sim, errando.
A publicação segue uma linha filosófica que eu denomino de “coitadismo”. O “coitadismo” faz de tudo para que os estudantes não se sintam diminuídos por não conhecerem alguma coisa. Para evitar um sentimento que eles, seguidores da vertente, supõem que os coitadinhos vão ter, embora não possam afirmar com 100% de certeza esse resultado, deixam de cumprir suas obrigações.
A justificativa para agir assim é o tal do politicamente correto. Corrigir qualquer manifestação dessa ordem seria preconceito linguístico, dizem eles. Tentam, assim, enfiar o dedo numa das feridas da humanidade. Ninguém quer ser tachado de preconceituoso. Vejam como esse pessoal é bonzinho. Eles, sim, preservam a dignidade de seus alunos. Nós, os preconceituosos, tentamos ensinar o código de escrita, pois não temos coração. Ainda vamos ver com quantos paus se faz uma canoa!
Eu próprio já vi. Certa vez, pretendi cobrar mais a escrita num curso de nível superior. Uma das colegas objetou, pública e desdenhosamente, que uma universidade não deveria tratar dessas trivialidades.
Fiquei imaginando: esses coitadistas ainda vão dominar o mundo. Minha disciplina era dedicada à redação e a colega era da mesma área.


